Na tarde de 9 de julho passado, o Palácio do Planalto recebeu, atônito, uma postagem de Donald Trump em sua rede, a Truth Social, decretando tarifa de 40% sobre todos os produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos. Somados aos 10% que já vigoravam desde abril, o Brasil passaria a enfrentar taxa de 50% sobre suas exportações.
Num jogo clássico da diplomacia, algumas decisões foram tomadas na mesma tarde no gabinete presidencial. A primeira foi confirmar a veracidade da carta postada na Truth Social. O embaixador americano interino em Brasília, Gabriel Escobar, foi convocado – e atestou a procedência. O segundo passo foi “devolver a carta”, um gesto simbólico que consistiu em recusar oficialmente seu recebimento.
Em seguida, definiu-se que Lula se manifestaria no mesmo dia, para que uma eventual demora não fosse percebida como medo ou indecisão. O governo sabia que a carta postada nas redes sociais era verdadeira, mas queria seguir os ritos apropriados, para demonstrar superioridade institucional.
Entre Brasília e Washington, entre Rio de Janeiro e Nova York, Ana Clara Costa reconstitui na piauí deste mês a escalada de tensão, os encontros secretos, as falhas e acertos que mobilizaram o governo, a Justiça e o setor privado em torno de uma saída.
Um passo decisivo da negociação em favor do Brasil foi dado com a ajuda de Richard Grenell, de 59 anos, o encarregado de missões especiais do governo Trump.
Depois da vitória de Trump no ano passado, ele tentou se cacifar para o cargo de secretário de Estado, mas acabou preterido por Marco Rubio. A relação entre os dois azedou rapidamente. Grenell defendia uma saída negociada para a crise venezuelana, enquanto Rubio insistia no uso da força para derrubar o regime. No caso do Brasil, quando Trump começou a suspeitar de que tinha caído em uma armadilha retórica armada pelo bolsonarismo, encarregou Grenell de sondar as autoridades brasileiras.
Em setembro, durante uma viagem ao Paraguai, Grenell resolveu fazer uma escala no Brasil e pediu um encontro com o chanceler Mauro Vieira, que se deslocou ao Rio para a conversa no dia 15. Quando procurou Vieira, o americano também ligou para Celso Amorim, assessor especial de Lula, como revelou o jornal O Estado de S. Paulo.
Nas conversas, Grenell relatou que Trump já tinha sido informado por empresários americanos e brasileiros, entre eles Joesley Batista, dono da JBS, de que a questão do julgamento de Bolsonaro não era o que imaginavam.
Grenell sondou sobre a disposição de Lula para se reunir com Trump na ONU. Recebeu um sinal positivo. A ideia do encontro empolgava mais o setor privado do que o governo – parte da diplomacia temia que Lula ficasse exposto a algum constrangimento, dado o comportamento imprevisível de Trump. Os empresários, porém, acreditavam que Lula teria condições de quebrar o gelo e desidratar a crise.
Antes mesmo de Grenell sondar o Itamaraty, a chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, já havia recebido proposta semelhante de lobistas contratados por empresas brasileiras. Como interlocutores do setor privado duvidavam que a diplomacia topasse algo tão arriscado, resolveram encaminhar ao chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, um esboço do que seria o encontro nos bastidores da Assembleia Geral da ONU: os dois presidentes se cruzariam quando Lula deixasse a tribuna e Trump se encaminhasse a ela. Duraria dez minutos.
No fim, nada saiu conforme o roteiro – e, ainda assim, tudo funcionou.
Na tribuna, Trump começou atacando o Brasil. Afirmou que o país estava “indo mal” e só conseguiria se sair bem se trabalhasse em aliança com ele. Mas, quando o teleprompter entrou em pane, Trump abandonou o texto preparado e passou a falar de improviso. Nesse momento, Trump elogiou Lula. Sentado na plateia, Marco Rubio, o secretário de Estado, deixou transparecer uma surpresa genuína. Ele não estava a par do encontro entre os dois presidentes, uma vez que havia sido arquitetado por seu rival, Richard Grenell.
Durante os dias em que estava em Nova York, Grenell continuou exercendo seu papel de mestre de cerimônias da distensão, orquestrando encontros e calibrando mensagens pacificadoras. Teve mais dois encontros com autoridades brasileiras. Um com Celso Amorim, outro novamente com Mauro Vieira. As duas conversas acabaram se tornando uma preparação para o tão esperado telefonema entre Lula e Trump, que ocorreu no início de outubro.
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