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Temporada de delação

    Reunião da CPMI do INSS, no Senado Imagem: Andressa Anholete/ Agência Senado

anais do crime

Temporada de delação

Operador da fraude do INSS contrata os advogados de Bolsonaro e de Temer para fazer colaboração premiada

Allan de Abreu, do Rio de Janeiro | 19 mar 2026_09h14
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Iniciada em agosto de 2025 com previsão de encerrar seus trabalhos em 28 de março, a CPMI do INSS pode ser prorrogada em mais sessenta dias. Nesta semana, o senador mineiro e presidente da comissão Carlos Viana (Podemos) pediu que os trabalhos sejam estendidos para prosseguir com a investigação sobre os desvios do dinheiro de aposentados e pensionistas. O pedido de prorrogação não foi votado. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, quer que essa CPMI acabe o quanto antes – e impôs sigilo de cem anos aos registros de entrada do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, nas dependências da casa. Longe de Brasília, no entanto, o calendário é outro. Na Penitenciária II de Guarulhos, a Desembargador Adriano Marrey, está sendo gestada uma delação que deve trazer novos contextos, novos nomes e novas provas ao escândalo do INSS.

É de lá que o empresário Maurício Camisotti, um dos maiores articuladores e operadores da fraude bilionária, tem feito reuniões para fechar um acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal. Camisotti escalou advogados de dois ex-presidentes da República: Celso Vilardi, que cuida da defesa de Jair Bolsonaro, e Átila Pimenta Coelho Machado, responsável por defender Michel Temer. Os dois têm históricos de delações. No âmbito da Lava Jato, Vilardi estruturou a delação da Hypera Pharma (antiga Hypermarcas), e Machado, do doleiro Dario Messer. (Procurados pela reportagem via WhatsApp, nenhum dos dois se manifestou.)

Desde dezembro do ano passado, os advogados e os agentes da Polícia Federal têm feito reuniões, sempre por videoconferência. Até agora, já foram mais de dez. Neste momento, os oficiais da PF estão concentrados em receber documentos sobre transferências e mensagens, além do organograma dos operadores dos desvios. Sobre a mesa, estão nomes de políticos, funcionários públicos, lobistas e advogados.

Camisotti, ao lado do Careca do INSS, é o nome central do escândalo. Em uma sessão da CPMI realizada em fevereiro, o senador Izalci Lucas, do PL do Distrito Federal e relator da comissão, afirmou que o empresário criou uma grande estrutura para roubo de aposentados, criando um “império do roubo de aposentados”. Na mesma sessão, o deputado e relator Alfredo Gaspar, do União Brasil de Alagoas, disse que Camisotti recebeu 350 milhões de reais com os desvios de aposentados. Os integrantes da CPMI convocaram Paulo Camisotti, filho e sócio de Maurício Camisotti, para depor em Brasília em fevereiro, mas ele conseguiu um habeas corpus que lhe deu o direito de ficar calado. Admitiu, no entanto, ter visitado seu pai na prisão onde as tratativas das delações estão acontecendo.

 

No âmbito da “Operação Sem Desconto” deflagrada em 12 de setembro passado, o Careca do INSS e Camisotti são acusados de serem os principais operadores do esquema que lesou os beneficiários do INSS em 6,3 bilhões de reais, com descontos direto na folha de pagamento que não haviam sido devidamente autorizados. Na mesma data da prisão, o advogado Nelson Wilians – muito ligado a Camisotti – foi alvo de busca e apreensão. Dentre os bens apreendidos, os agentes da PF levaram um automóvel Phantom, da Rolls-Royce, avaliado em 9,7 milhões de reais. Em setembro, durante depoimento prestado à CPMI do INSS na condição de testemunha, Wilians compareceu também protegido por um habeas corpus para poder ficar calado. Chegou a dizer que “aquiescia” com o termo de compromisso, mas depois declinou para não perder o direito de se manter em silêncio. De todo modo, ele negou ter ligação com as fraudes na Previdência.

A delação de Camisotti precisa ser homologada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Mendonça, indicado ao cargo por Jair Bolsonaro, se tornou um dos homens mais poderosos da República. Estão em suas mãos os dois casos mais explosivos do mundo do crime: o INSS e a fraude do Banco Master. Os dois casos têm conexões. O Master passou a ser alvo da CPMI do INSS porque, dentre a sua cartela de serviços, oferecia empréstimos consignados a aposentados. No controle do Master e do INSS, Mendonça definirá futuras operações e homologará delações com desdobramentos que tendem a impactar diretamente as eleições deste ano.