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Nov 2024 15h57
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Na manhã de 21 de junho de 1970, quem estivesse folheando o Jornal do Brasil leria na seção de notícias locais que os moradores da Glória, bairro tradicional do Rio, celebravam que as obras para a construção do metrô não fariam desaparecer a charmosa Praça Paris. Na Tijuca, Zona Norte da cidade, um empreendimento imobiliário localizado na Rua Antônio Basilio, 131, prometia um excepcional apartamento, de três quartos, dois banheiros, copa, cozinha e depósito, financiado em 51 meses. A menos de 300 metros deste mesmo apartamento, estava uma das sedes do DOI-Codi, um dos principais órgãos de repressão do regime militar, que menos de dois anos antes decretara o Ato Institucional Nº5, o mais duro cerceamento de liberdades imposto pelo governo da época.
Em uma das celas do DOI-Codi estava o jornalista Álvaro Caldas, então com 29 anos de idade. Às duas da tarde, atento ao que saía do radinho de pilha do soldado que guardava sua cela, Caldas se uniria, apesar daquele terrível contexto, a uma ansiedade compartilhada por todos os brasileiros: acompanhar a final da Copa do Mundo na qual o Brasil conquistaria o tricampeonato mundial.
Esse é o tema de uma das setenta crônicas do livro Da minha janela não vejo o fim do mundo, da editora Garamond, um compilado de textos escritos entre 2018 e 2023 e publicados no site Ultrajano, do jornalista José Trajano, de quem Caldas é amigo, e no JB Online, o site do Jornal do Brasil. As crônicas mesclam histórias e lembranças de dois períodos históricos: a ditadura militar, com os dramas que Caldas viveu, os amigos que fez e perdeu, e um passado mais recente, com reflexões provenientes do isolamento social provocado pela pandemia da Covid.
As crônicas sobre o primeiro período histórico se sobressaem – o que não é de surpreender, dada a história do autor. Uma das primeiras incursões literárias de Caldas foi ainda no período da ditadura, com o livro Tirando o Capuz, publicado em 1981. Nele, Caldas narra suas memórias do cárcere – àquela altura ainda bem recentes. O livro é uma das primeiras obras que descrevem, detalham e narram passagens sobre a violência e a tortura sofridas por presos políticos dessa época, e um dos primeiros a expor e relatar o nome de seus torturadores, num ato de coragem do escritor.
Caldas foi torturado e preso duas vezes durante a ditadura por participar de movimentos de oposição. Ele estudou jornalismo na antiga Faculdade Nacional de Filosofia (que depois virou a UFRJ) no início dos anos 1960. Foi ali que começou o seu interesse pela militância política e onde nasceu a amizade com o líder político Mário Alves – o primeiro preso político assassinado pelo regime militar, em janeiro de 1970, e para quem Caldas dedicou uma de suas crônicas.