piauí recomenda
Nov 2024 15h59
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Em seu álbum de estreia solo, Dora Morelenbaum se distancia doneotropicalismo de sua banda Bala Desejo, mas sem abandonar a nostalgia. PIQUE é uma coleção de canções que misturam influências de jazz a baladas românticas, revelando uma artista que, além de segurança, já tem uma visão sobre seu caminho artístico. Filha de Jaques Morelenbaum – violoncelista, arranjador, maestro e “músico dos músicos” por excelência –. Dora parece caminhar, à diferença da maioria dos herdeiros da aristocracia musical carioca, para um território similar ao do pai: aquele em que o respeito dos pares precede o reconhecimento do público. A turnê do novo disco começou na Suécia e só desembarca no Brasil em dezembro, depois de circular por outros nove países europeus.
Embora não seja inovador, o disco se distingue no cenário atual pelas escolhas artísticas e colaborações. Dora se apresenta com uma voz doce, clara e versátil – herança genética de sua mãe, Paula Morelenbaum. Ana Frango Elétrico assina a produção, enquanto Sophia Chablau, Zé Ibarra e Tom Veloso contribuem com composições. Gravado no Wolf Studio – o mesmo onde o Bala Desejo registrou seu álbum premiado com o Grammy Latino e Ana Frango Elétrico produziu seu trabalho mais recente –, o disco é bem-produzido e bem-mixado.
O álbum veste uma linguagem jazzística sem perder seu caráter essencialmente cancioneiro. Venha comigo, de Sophia Chablau, tem um refrão tão imediatamente cativante que, se fosse transportado para a voz de João Gomes, poderia facilmente se converter em hit do piseiro ou embalar uma campanha publicitária para o Ceará. Já Essa confusão, parceria com Zé Ibarra, seu colega de Bala Desejo, evoca as baladas românticas mais populares de Marisa Monte e parece talhada para embalar uma próxima novela das nove. Nessa faixa, o arranjo de cordas, assinado por Dora em colaboração com o pai, transita entre o drama e a sedução com glissandos cinematográficos.
Com o avançar do disco, no entanto, a sonoridade vai perdendo sua força inicial – a paleta sonora não se renova, e o rigor dos arranjos cede espaço a soluções criativamente conservadoras. O trabalho de Dora é resultado de sorte e esforço. Como terceira geração de uma família de músicos, ela teve todas as oportunidades para desenvolver seu talento e as aproveitou bem. Disciplina e seriedade aparecem em cada detalhe do disco. Além disso, ela parece ter uma rede de contatos poderosa, que facilita apoios e parcerias. Essas vantagens dão espaço para mais ousadia. PIQUE é um disco sólido, e pode ser o ponto de partida para experimentos musicais mais audaciosos.