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Set 2024 18h07
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O título, na tradução brasileira, tem ares de filme B de ação: O sequestro do papa. Mas, como disse Eduardo Escorel em sua coluna de 17 de julho, trata-se de uma imprecisão infeliz: nenhum papa é sequestrado no longa-metragem de Marco Bellocchio. Em vez disso, sequestra. É uma história real, ocorrida em 1858. Por ordem do Tribunal da Inquisição, um menino judeu de 6 anos foi separado de sua família, em Bolonha, para ser catequizado e virar padre. Seu nome era Edgardo Mortara, e por isso o episódio ficou conhecido como “caso Mortara”.
Filmes sobre a Igreja Católica costumam emprestar um ar de mistério e grandeza ao que acontece no Vaticano. Um dos vários méritos de O sequestro do papa (Rapito, no título original, em italiano) é evitar esse clichê. A Igreja retratada no filme é mundana. Isso se deve, em parte, à circunstância histórica: numa Itália ainda não unificada, o papa era um imperador com exército próprio (comandava os Estados Pontifícios, cujo centro de poder era Roma). Mas o que mais colabora para isso é o retrato que o filme faz de Pio IX, o papa rei. Embora poderoso, ele é tratado como uma figura marcadamente humana – insegura, frágil, deslocada de seu tempo. Incomodava-se com os jornais, que, já muito disseminados, publicavam charges criticando o sequestro. Parecia alheio à decadência de seu império.
A sutileza do personagem deve muito à atuação de Paolo Pierobon. Mais impressionante, no entanto, é Enea Sala, ator mirim que vive o protagonista e é responsável por algumas cenas comoventes. Fato curioso, noticiado em alguns veículos, é que Steven Spielberg quis dirigir um filme sobre o caso Mortara, mas desistiu porque não encontrou um ator à altura do papel principal. Bellocchio foi mais bem-sucedido na busca, e poupou o espectador do que muito possivelmente seria um dramalhão hollywoodiano.
Histórias terríveis, como essa, são um prato cheio para filmes fáceis. O sequestro do papa toma um caminho difícil, fiel ao jeito como a vida vai se acomodando mesmo em situações trágicas. Sua abordagem sóbria, em vez de minimizar o absurdo, o torna ainda mais palpável e atual. Mostra que a violência da Igreja (e de todos os tipos) não é fruto de mentes malignas, mas das pessoas e de seu tempo – e, por isso, está sempre à espreita.
O filme está em cartaz em alguns cinemas, mas também pode ser alugado ou comprado no Prime Video e na Apple TV.