UMA NOITE E MUITO MAIS

Noitada, novo romance de Reinaldo Moraes, mantém o espírito malandro da nossa literatura
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É uma noite de domingo, em meados de 2013. Mina, editora de ficção, e Kabeto, escritor, estão num boteco do Centro de São Paulo quando decidem tomar um táxi até o bairro de Higienópolis. Com as ruas fechadas por manifestações, o percurso demora muito mais que o usual. No trajeto os dois falam de cocaína, sexo, e do primeiro livro de Kabeto depois de muitos anos. O ponto de destino ao qual querem chegar é uma suruba marcada com outras duas mulheres – uma que Kabeto conheceu recentemente, atriz da classe média progressista, e uma outra descrita de forma sucinta por Mina como uma engomadinha.

Assim começa Noitada, o livro mais recente de Reinaldo Moraes, autor da obra-prima Pornopopeia. A viagem se estende pelas primeiras cem páginas do romance: “Me desafiei a fazer com que uma situação inercial tivesse movimento literário”, disse ele numa entrevista à Folha de S.Paulo. E Moraes consegue: o episódio, que dá o pontapé à trama e que se desenrola no decorrer de apenas uma noite, concentra discussões que tiveram uma espécie de certidão de nascimento naquele momento político (enquanto dirige, por exemplo, o taxista discute com Mina e esbraveja contra a imoralidade, a desordem e a roubalheira petista).

O protagonista, já cinquentenário, sente-se cada vez mais velho num mundo em estado de mudança contínua. É o primeiro livro de Moraes com elementos da época em que vivemos, como um iPhone e o Facebook, plataforma pela qual Mina acompanha ao vivo o desenrolar das passeatas através da página da Mídia Ninja. É no trânsito infernal que Mina apresenta a Kabeto esses novos modos de se informar. E ele parece um homo erectus descobrindo o fogo.

Kabeto é um pé-rapado, mora num cubículo e seu dinheiro é milimetricamente contado para que ele possa viver e gastar com um regabofe de pó e álcool – mas continua homem. Já as outras personagens vivem em apartamentos de salas amplas, em prédios cujas arquiteturas são assinadas por modernistas – mas continuam mulheres. Que limites se impuseram nessas relações?

Para Moraes, a resposta está clara no próprio rigor formal de seu livro. A ambição está na tentativa de prosear de forma sacana e criar personagens que não são bons nem ruins – uma frente de resistência ao maniqueísmo das histórias que passamos a ler, ouvir e ver na última década. Moraes mantém o espírito malandro da nossa literatura e aposta numa escrita enérgica, típica de alguém disposto a sexo grupal numa noite de domingo – isso enquanto comenta transformações que tornaram tantas ideias e comportamentos obsoletos em pouquíssimo tempo.


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