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07 Fev 2025
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A primeira faixa do álbum Debí Tirar Más Fotos, do porto-riquenho Bad Bunny, começa com o grito: Nuevayol!, em referência à cidade de Nova York, que foi o principal destino de imigrantes porto-riquenhos no século XX. Depois do grito, ouve-se o sample de Un Verano en Nueva York, do grupo El Gran Combo de Puerto Rico – um clássico da salsa dos anos 1970 – transformar-se em dembow beat, a base do atual reggaeton. Já no fim da música, a animação dá lugar ao medo. Shh, cuida’o, que nadie nos escuche, sussurra Bad Bunny, como se nos lembrasse das precárias condições de travessia imposta a imigrantes latinos nos Estados Unidos. Essa atualização de clássicos latino-americanos aliada à crítica anticolonial é a alma do álbum.
Lançado em janeiro deste ano, a produção alcançou o topo das paradas musicais e transformou Bad Bunny (ou Benito Antonio Martinez Ocasio) em um dos artistas mais ouvidos do mundo – justamente num momento de profunda tensão entre a América Latina e os Estados Unidos de Donald Trump. Ao longo das dezessete faixas, Bad Bunny apresenta misturas de salsa, jíbaro, bomba, plena, reggaeton, synthpop e até um resquício de samba, subvertendo as aparentes regras da música comercial numa ode à cultura latina. Baile Inolvidable, por exemplo, é uma salsa vibrante de 6 minutos de duração. A extensão da canção vai na direção oposta ao padrão da indústria, hoje voltada principalmente para a viralização no TikTok e outras redes sociais.
Como artista do seu tempo, Bad Bunny usa a música para elaborar questões culturais e políticas relacionadas à dominação norte-americana. Na faixa Lo que le pasó a Hawaii, por exemplo, ele denuncia a invasão de terras e a exploração econômica desenfreada na sua terra natal: Quieren quitarme el río y también la playa/Quieren el barrio mío y que abuelita se vaya/No, no suelte’ la bandera ni olvide’ el lelolai/Que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái.
O Havaí foi invadido, literalmente, pelos Estados Unidos, que transformaram o local em uma espécie de playground, com resorts e atrações muitas vezes descoladas da tradição local. Bad Bunny faz uma música de protesto, mas também um alerta para que Porto Rico não tenha o mesmo destino (transformada numa base militar produtora de açúcar, a ilha hoje é oficialmente um território não incorporado dos Estados Unidos, um status ambíguo que confere alguns direitos aos cidadãos, mas lhes nega outros, como votar em eleições presidenciais americanas).
Se o álbum começa com a história da migração porto-riquenha, Café con ron marca o desejo de permanecer e reivindicar o território de origem. Com a participação da banda Los Pleneros de la Cresta, também de Porto Rico, Bad Bunny afirma: Ven subiendo, que no le vamo’ a bajar/Sube tú pa’ la montaña, hoy yo me quedo acá. É um recado para a indústria cultural americana e para todo o resto da América Latina: os Estados Unidos não são o centro do mundo.
Ainda nesta faixa, o refrão é cantado em coro: Por la mañana, café, por la tarde, ron/Ya estamo’ en la calle, sal de tu balcón. O ritmo em que essas frases são repetidas deixa em aberto o real sentido dessas palavras: trata-se de um grupo de trabalhadores marchando para a fábrica de açúcar ou jovens a caminho da farra? Longe de ser um defeito, essa ambiguidade entre luta e prazer enriquece a experiência de todo o álbum – e traduz uma característica central da cultura latina.
O ponto alto, porém, é a música DtMF (Debí Tirar Más Fotos), que dá nome ao álbum. Carregada de nostalgia, ela fala de um passado perdido, um rompimento cultural que o próprio artista buscou reverter através desse álbum. Essa ausência é representada na imagem da capa por duas cadeiras de plástico vazias com um cacho de bananas ao fundo. Aliás, a iconografia do álbum é toda composta por objetos, imagens e referências da cultura porto-riquenha, o que permite um mergulho total na história da ilha (os clipes e o curta-metragem que acompanham o projeto, por exemplo, têm como personagem coadjuvante um sapo-de-crista-de-porto-rico, espécie que está em risco de extinção).
Mais que um álbum, Debí Tirar Más Fotos é uma declaração de amor à gastronomia, à dança, à música e à língua de Porto Rico. E isso, por si só, já é uma revolução.