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Out 2024 14h53
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A “autora húngara de língua francesa”: essa oração, que poderia encabeçar um verbete da Wikipedia sobre Ágota Kristóf, define precisamente a condição peculiar que seu livro A analfabeta explora ao narrar a vida de uma escritora que, criada numa língua, se refez em outra.
Nascida em 1935, Kristóf migrou para a Suíça aos 21 anos, fugindo de uma vida hostil na Hungria. “Todos são pobres em nosso país. Alguns, inclusive, mais pobres do que outros. […] Temos o que comer e temos um teto, mas a comida é tão ruim e insuficiente que vivemos com fome. No inverno, sentimos frio”. Compreendemos que é da continuidade dessa vida na Hungria comunista, reduzida em possibilidades materiais e espirituais, que ela foge com o marido, depois de uma tentativa fracassada de autonomização húngara diante do domínio soviético. Como refugiada, sobrevive, mas experimenta outros aspectos da opressão: a perda de laços familiares, dos amigos, da língua, da memória, vivendo uma “vida contraída, sem mudança, sem surpresa, sem esperança”.
Kristóf trabalhou como operária fabril até que, aos 51 anos, conseguiu ter seu primeiro romance publicado (o formidável Um caderno e tanto, publicado aqui pela Rocco, em 1987, e lamentavelmente esgotado). O livro escrito em francês foi um êxito, e deu início à sua carreira pública como narradora. A analfabeta – espécie de autobiografia publicada agora no Brasil pela editora Nós, em uma tradução sensível e acertada – saiu originalmente em 2004, quando a autora já estava consagrada (ela viria a falecer em 2011).
Contando sua vida a partir de sua relação com as línguas e seu desejo de ler e escrever, o livro poderia ter sido uma narrativa de formação triunfante – mas está longe disso. Criança que vive a leitura como uma “doença” que, uma vez instalada, como tantas enfermidades, termina por definir quem a contrai, Kristóf explora aqui temas complexos. Como lidar com uma outra vida dentro da mesma vida? Como falar de si reconhecendo as falhas da memória e as dificuldades da leitura não apenas dos livros, mas do mundo? Como viver sem pertencer a um povo, alheada de sua língua materna não por escolha, mas pelo imperativo de sobreviver? “A doença da leitura me acarretará principalmente críticas e desprezo.” Desde cedo Kristóf se torna, aos olhos dos outros, estranha. O francês, a “língua inimiga”, é conquistada a duras penas e tardiamente. Mas Kristóf é também um exemplo da “operária que lê” à qual se referia Brecht em seu poema, sabedora de histórias, repleta de perguntas, inconformada. Essa condição híbrida é sua distinção.
Recuperando os momentos da noite em que atravessou clandestinamente a fronteira entre Hungria e Áustria, Kristóf diz que é “como se tudo tivesse acontecido num sonho, ou numa outra vida”. Numa bolsa carrega coisas para o provimento da filha pequena, noutra carrega dicionários: o fato recordado vira metonímia para a condição descrita meticulosamente nesses capítulos breves que parecem pequenos ensaios sobre os temas que lhes dão título (“Poemas”, “Língua materna e línguas inimigas”, “O deserto”, “Como alguém se torna escritor?”). Aqui se conta como uma pessoa se tornou leitora e depois escritora, duas vezes, em duas línguas, como se fossem duas vidas. A linguagem simples e precisa é um de seus grandes artifícios, pois nunca mascara a complexidade das experiências narradas nesse livro, breve e intenso na mesma medida.