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A VERDADE INSTÁVEL DE WERNER HERZOG

Cada um por si e Deus contra todos, autobiografia do cineasta alemão, mostra sua verve de contador de histórias
Imagem A verdade instável de Werner Herzog

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“Se uma casa tem uma iluminação muito clara até o último canto, ela se torna inabitável. É o mesmo com a alma, iluminá-la até sua sombra mais escura torna as pessoas ‘inabitáveis’. Estou convencido de que a psicanálise – junto com muitos outros erros terríveis da época – tornou o século XX terrível. Considero o século XX um erro em sua totalidade.”

Esse parágrafo, se escrito por outra pessoa, soaria como uma opinião fanfarrona. Vindo de Werner Herzog, é uma declaração sincera. O cineasta alemão cultiva uma visão mística da vida. Em sua autobiografia, Cada um por si e Deus contra todos – memórias, traduzida por Sonali Bertuol, passa a impressão de que se sentiria mais à vontade nos tempos pré-modernos, quando o mundo ainda comportava mistérios. Dois de seus maiores ídolos, ele diz, são Fábio Máximo, um dos líderes do Império Romano, e Aquenatón, faraó que implantou o monoteísmo no antigo Egito. Figuras tão ambiciosas quanto seus protagonistas Aguirre (do filme de 1972, Aguirre, a cólera dos Deuses) e Brian Sweeney Fitzgerald (do filme de 1982, Fitzcarraldo).

Herzog cresceu na Bavária dos anos 1940, devastada pela derrota dos nazistas. Viveu, apesar da pobreza extrema, “uma infância magnífica”. Com pouca ou nenhuma supervisão dos pais, passava os dias em contato com a natureza, da qual guarda um temor reverencial. É um ótimo contador de histórias, ainda que no livro, como nos filmes, seja difícil saber o que é verdade ou não. Herzog diz que trabalhou pescando lulas em Creta, montando touros no México, soldando peças numa metalúrgica na Alemanha. Diz ter aprendido com um soldado japonês que, no crepúsculo, é possível enxergar o trajeto que as balas de fuzil fazem no ar. E outras anedotas fantásticas. Relata também os desastres da gravação de Fitzcarraldo, que incluem um funcionário tendo de amputar um pé com uma motosserra.

Essa zona cinzenta entre fato e ficção é chamada por Herzog de “verdade extática”. O assunto lhe rende há anos uma rixa com documentaristas, e por isso dedicou um capítulo do livro para se explicar. “A verdade não precisa coincidir com os fatos. Do contrário, a lista telefônica de Manhattan seria o livro dos livros”, argumenta o cineasta. “Só a poesia, só a invenção da arte, pode revelar uma camada mais profunda […].” Os críticos dizem que Herzog pode inventar a história que bem entender, contanto que, por razões éticas, não a rotule como documentário. Nem como autobiografia, alguns podem dizer.

Um trecho do livro foi publicado na edição de maio da piauí:

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/mochila-de-chatwin/


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