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A VIDA DOS HOMENS GAYS NO JAPÃO

Primeiro programa japonês de namoro gay, O namorado se tornou um hit no TikTok – e conta com a participação de um brasileiro
Imagem A vida dos homens gays no Japão

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Seja em cenários paradisíacos ou com celebridades, gincanas esportivas ou apelos explícitos ao erotismo, os realities para reunir casais são uma fórmula certeira para conquistar audiência. Ancorado em formatos vulgares e sem espaço para sutilezas, o gênero já parecia saturado. Mas O namorado (The Boyfriend) – um reality japonês com um total de nove homens gays em busca de um par – desafia essa premissa. 

Lançado mundialmente no dia 9 de julho, O namorado é o primeiro programa de namoro gay da história do Japão, e isso por si só é motivo de comemoração. O Japão é um dos países mais extraordinários e avançados do mundo, mas no que diz respeito aos direitos da população LGBTQIA+, está muito defasado. Dentre todas as nações ricas do planeta, é a única a não permitir a união homoafetiva. O programa rapidamente se tornou o mais visto da Netflix japonesa e um hit no TikTok.

Os participantes, que têm entre 23 e 36 anos, se reúnem em uma casa de praia modesta, chamada de Green Room, e passam a ter atividades em comum. Dois deles ficam responsáveis por cuidar de um food truck para vender cafés. Eles precisam administrar o negócio, os turnos e o lucro. A escolha do companheiro de labuta do dia gera laços e ciúmes. Há conflitos que causam humor involuntário – um dos participantes, por exemplo, acaba usando boa parte do orçamento para comprar peito de frango (ele bate um shake de frango com água todas as manhãs para suprir a dose diária de proteína e manter seu corpo impecável). Para nós, espectadores de origem latina, causa ao mesmo tempo estranheza e admiração perceber como as questões entre os participantes são tratadas com uma comunicação indireta e platônica (há pouquíssimo contato físico). Kazuto, um chef de cozinha que é o homem mais disputado do programa, precisa encontrar diversas formas de dizer “não” aos pretendentes. 

Apesar de ser um marco histórico, o programa não levanta nenhuma bandeira política ou de ativismo. A sua graça está nas nuances e em como o prosaico pode revelar muito de todo o contexto. As histórias dos participantes mostram, de forma fluida e entrelaçada à narrativa, como a vida de um homem gay se desdobra no Japão. Um dos participantes se emociona e emociona os colegas ao contar sobre seu dilema: sempre teve medo de contar aos pais sobre sua orientação sexual, e ter ido ao programa foi, muito mais do que uma tentativa de engatar um romance, uma forma de se abrir para a sua família. Estar ali é um caminho sem volta.

Outro personagem, o belíssimo Shun, tem um comportamento irregular, desses que causam certa raiva: demonstra carinho, e depois se fecha em copas. Chega a soar arrogante. Ou seria autoproteção? Não há como ignorar a sua infância. Shun foi abandonado por seus pais biológicos em um orfanato, nunca foi adotado e deixou o lugar quando completou 18 anos sem ter laços familiares. 

Um dos nove participantes é o brasileiro Alan, de 29 anos. Natural do interior de São Paulo, ele se mudou com a mãe aos 2 anos para o Japão, e nunca mais voltou ao Brasil. Apesar de ter sido criado no Japão e viver lá há quase três décadas, Alan é o participante mais extrovertido – ele abraça e toca seus colegas, algo não muito comum no Green Room. Um diferencial do reality é a presença de uma mesa-redonda composta por cinco pessoas, entre elas a drag queen Durian Lollobrigida, bastante conhecida no Japão. Tal qual os comentaristas de futebol, que analisam jogadas, lances e fazem conjecturas de como determinado jogador deveria ter atuado, os cinco comentam as investidas amorosas dos participantes. É hilário – como se estivéssemos vendo o programa ao lado de amigos. 

Disponível na Netflix, o reality tem dez episódios, cada um com cerca de 40 minutos. É entretenimento (e escapismo) com qualidade.


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