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A VIDA INTERIOR DAS MULHERES PELO OLHAR DE VIRGINIA WOOLF

Ensaios seletos traz relatos biográficos sobre diferentes mulheres, entre elas Jane Austen e Mary Wollstonecraft
Imagem A vida interior das mulheres pelo olhar de Virginia Woolf

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Virgina Woolf estava certa ao dizer que “um livro de mulher não é escrito como seria se o autor fosse homem”. Na coletânea Ensaios seletos (Editora 34), vemos uma das maiores ficcionistas do século XX escrever sobre os mais variados temas, desde a morte de uma mariposa às suas impressões da Câmara dos Comuns. Woolf segue “a forma natural do seu pensamento, sem o esmagar nem distorcer” – um modo de escrever, segundo ela, adequado às mulheres modernas, abrindo mão das frases descosidas e pomposas usadas na tradição literária masculina. O resultado é que, passados quase cem anos, os textos ainda conservam seu frescor.

Originalmente publicada pela Cosac Naify em 2014 com o título O valor do riso e outros ensaios, a tradução de Leonardo Fróes foi revista e ampliada neste ano pela Editora 34. Os ensaios foram publicados em diferentes periódicos entre 1905 e 1940, a maioria nos anos em que a autora se dedicou ao jornalismo literário. Na lista consta, por exemplo, o texto Mulheres e ficção, protótipo do que viria a ser o clássico Um quarto todo seu, em que a autora destrincha as condições materiais e emocionais que dificultaram a produção intelectual feminina. 

O ponto alto da coletânea, porém, são os ensaios biográficos sobre diferentes mulheres, não necessariamente escritoras de ficção. São perfis de mulheres atormentadas, demonizadas e admiradas – entre elas, figuras célebres, como Mary Wollstonecraft e Jane Austen. Também se dedica a personagens atualmente menos conhecidas, como a poetisa Christina Rossetti, a atriz francesa Sarah Bernhardt – que basicamente inventou o status de celebridade mundial – e Louise de La Vallière, uma menina usada para encobrir as aventuras sexuais de Luís XIV.

Numa empreitada quase arqueológica, Woolf procura vestígios da personalidade dessas mulheres em seus escritos – diários, autobiografias, cartas ou romances. Mais do que o relato factual, ela procura desvendar algo da vida interior dessas mulheres nos detalhes de seus textos, na maneira de escrever ou nas mudanças de tom da narrativa. Ela enxerga, por exemplo, nas frases da jovem Jane Austen o reflexo de uma garota “no seu canto, rindo do mundo” e conclui que “aos quinze anos, [Austen] tinha poucas ilusões sobre outras pessoas, e nenhuma quanto a si mesma”. São detalhes e nuances que talvez passariam despercebidos por um ensaísta masculino. 

Em sua análise, Woolf não se deixa levar pela condescendência, e é justamente esse o traço mais radical de seus ensaios biográficos: tratar essas mulheres como seres humanos. Algumas são insolentes, dominadoras, excêntricas. Outras apresentam caráter peremptório, antipático, egoísta. Todas as contradições e complexidades são usadas para produzir reflexões profundas sobre o espírito das figuras delineadas. 

Woolf narra, questiona e instiga o leitor com várias histórias desse tipo – isto é, histórias que talvez nunca viessem a público por mãos masculinas. E ainda que viessem, certamente não seriam contadas da forma como Woolf o faz.


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