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A VIDA PARA ALÉM DOS CARTÕES-POSTAIS DO RIO DE JANEIRO

O filme Kasa Branca, de Luciano Vidigal, conta a história de um adolescente negro que descobre que sua avó está na fase terminal do Alzheimer
Imagem A vida para além dos cartões-postais do Rio de Janeiro

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Da estação de trem Central do Brasil, no Centro do Rio, até a comunidade da Chatuba, no município de Mesquita, o passageiro se desloca por 30,8 km em uma viagem que dura cerca de uma hora e meia – isso quando não há atrasos nos trens, devido a problemas costumeiros ao ramal Japeri. É nesse município da Baixada Fluminense – região que raramente é retratada para além da cobertura jornalística policial – que se passa a história de Dé (Big Jaum) e sua avó, dona Almerinda (Teca Pereira). O amor do jovem negro por ela, que está no estágio avançado da doença de Alzheimer e com quem vive, e a amizade e cumplicidade de Dé com os seus melhores amigos – Adrianim (Diego Francisco), Martins (Ramon Francisco) e Talita (Gi Fernandes) – carregam a narrativa do filme Kasa Branca.

Dirigido e roteirizado por Luciano Vidigal, que se baseou em uma história real, o longa que está em cartaz em poucos cinemas nos faz pegar esse trem e acompanhar a vida de toda essa turma por lá, in loco, na Chatuba de Mesquita. Vida é a palavra-chave do filme. A vida que existe para além dos cartões-postais da cidade, a vida que Dé quer que a avó, mesmo debilitada, aproveite até o fim de sua jornada, a vida que todos os jovens precisam suportar para seguirem com seus sonhos. É a vida que dança ao som de rap, trap, funk e do “tac-tac” do trem passando. Adrianim, um dos melhores amigos de Dé – interpretado com maestria e doçura pelo humorista Big Jaum – define concisamente essa vida: “Tu tem que ficar firme, tá ligado? Tu é a base. Se tu cair, já era, mano”

Vidigal é cria da comunidade da Zona Sul do Rio que leva no sobrenome, e seu primeiro longa é um triunfo. Venceu o prêmio de Melhor Direção no Festival do Rio, e vem colecionando elogios por onde passa. Não é bem um favela-movie, mas sim um favela-moving. É a comunidade em movimento, solidária e vigorosa, como de fato ela é, sendo a violência uma coadjuvante que não a define nem sequestra a sua narrativa. Em um momento em que setores da sociedade defendem que a solução para as favelas é tiro, porrada e bomba, Kasa Branca nos brinda com uma carta de amor às periferias, sendo um presente audiovisual dado ao Brasil, essa nação criada por avós negras cujo velho clichê diz que é um país sem memória.


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