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ADOLESCÊNCIA TRAZ MAIS PERGUNTAS QUE RESPOSTAS

Quando a câmera é desligada ao final de cada episódio, a sensação é de que algo terrível cresce sob nossos pés
Imagem <i>Adolescência</i> traz mais perguntas que respostas

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Uma psicóloga entra numa sala onde há livros e puffs coloridos. Seu paciente, um menino de 13 anos, espera por ela de pé. Ela coloca suas oferendas na mesa: um copo de chocolate quente com marshmallows e um sanduíche, que trouxe para ele comer durante a sessão. Tudo está em ordem, salvo pelo fato de que o menino, Jamie, é acusado de matar uma colega de turma, e que ela está lá para dar um parecer psicológico ao tribunal que julgará seu destino.

A cena compõe o terceiro episódio da minissérie Adolescência, que estreou na Netflix no dia 13 de março e já coleciona considerável aclamação popular e crítica. O embate entre a psicóloga (Erin Doherty) e Jamie (Owen Cooper) foi a primeira cena da série a ser gravada, e, como todos os quatro episódios, foi feita em plano-sequência. Ou seja, tudo filmado de uma só vez, sem cortes.

Assim como a personagem de Doherty, examinamos, em vão, as reações daquele menino, em busca de uma explicação para o ato de violência brutal. O que levaria um jovem a esfaquear uma menina de sua idade? A série não é um programa sobre o crime ou sobre a investigação tortuosa atrás do culpado. Não há dúvidas de que Jamie matou a colega. A questão é que nunca saberemos, de fato, a razão do crime. Apesar do título, a minissérie não dá palco às suas vozes adolescentes. Salvo pelo momento em que o filho do detetive explica ao pai, atônito, a linguagem dos emojis nas redes sociais, os jovens de Adolescência não dividem conosco sua visão de mundo. Seguimos uma câmera inquieta como único ponto de vista, enquanto adultos perplexos percebem o quanto são alheios aos costumes da geração que estão criando.

O machismo e a misoginia dos pais assumem outros contornos em seus filhos, deixando famílias, professores e psicólogos abismados. Ninguém previra a radicalização de Jamie, nem o perigo que seus momentos de fúria guardavam. A série, como seus personagens adultos, traz mais perguntas sobre a “machosfera” do que respostas. Quando a câmera é desligada ao final de cada episódio, a sensação é de que algo terrível cresce sob nossos pés.

O plano-sequência não é algo novo no audiovisual. Já foi defendido por críticos como uma forma de aproximar o cinema da realidade e já ilustrou filmes de Hitchcock, Godard, Orson Welles e Sokurov, entre outros. Debates sobre se o cinema consegue, de fato, retratar a realidade à parte, o plano-sequência coloca o espectador no meio da ação. No primeiro episódio, acompanhamos Jamie e sua família pelas salas e corredores da delegacia. Sentimos as esperas, a burocracia de exames e advogados e depoimentos. Como Eddie, o pai do menino, chegamos ao interrogatório sem saber o que acontecera para justificar a apreensão. A câmera, que voa e atravessa janelas em alguns momentos, poderia tirar o foco da narrativa se fosse mero malabarismo técnico, mas não é o caso. Os criadores Jack Thorne e Stephen Graham souberam dosar: conteúdo e forma trabalham juntos e, como aos personagens, não nos deixam relaxar.


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