piauí recomenda
Dez 2023 15h30
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
O curta-metragem Roundhay Garden Scene, de 1888, tem dois segundos e mostra um grupo de pessoas na frente de uma casa. É um dos registros cinematográficos mais antigos. A arquitetura faz parte, portanto, de um dos marcos inaugurais do cinema, fato que o diretor Kleber Mendonça Filho parece ter sempre em mente. Nos filmes Vinil Verde, Eletrodoméstica, Recife Frio, O Som ao Redor e Aquarius, ele fez da casa de sua família e do espaço urbano do Recife mais do que cenários e locações para suas obras. Transformou-os em organismos vivos que substanciam suas histórias.
Retratos Fantasmas é um filme-ensaio narrado por Mendonça Filho e dividido em três partes. Na primeira, o foco é familiar e intimista: a residência de Boa Viagem que aparece em seus filmes – comprada e idealizada por sua mãe quando ela superava o fim de um casamento, e projetada por seu irmão arquiteto – sofre alterações internas com o passar do tempo. As mudanças mais drásticas, porém, acontecem ao redor, na vizinhança que se transforma. Casas dão lugar a grandes condomínios, com muros altos, grades, cercas elétricas e câmeras.
Nas outras duas partes do filme, o olhar se volta aos espaços coletivos: o Centro antigo do Recife e os cinemas de rua que formaram o diretor. São espaços de sociabilidade que no passado foram vibrantes e que se deterioraram, sucumbindo à modernidade acachapante que desqualifica aquilo que considera ultrapassado.
Numa camada superficial, é tentador ler Retratos Fantasmas como um filme sobre a memória afetiva do cineasta. Mas é mais do que isso. É, sobretudo, a história do poder econômico que passa por cima da memória coletiva, do valor histórico e cultural, para oferecer um projeto de cidade excludente, paranoico e agorafóbico. Retratos Fantasmas foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar na categoria de melhor filme internacional, e o filme de Kleber Mendonça Filho de fato tem a capacidade de se comunicar com plateias mundo afora, porque parte do particular para o universal. No mundo capitalista, todo mundo tem um cinema de rua de estimação que foi destruído para dar lugar a um terrível prédio espelhado com vidros fumê.