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Jun 2024 10h24
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Filho de imigrantes judeus austríacos, com passagem por um internato de orientação anarquista, Jorge Bodanzky saiu de São Paulo em 1964 para estudar arquitetura na Universidade de Brasília. O golpe militar fechou a universidade, perseguiu professores, interrompeu os estudos e atravessou a percepção crítica do jovem que, ora com uma câmera fotográfica, ora com uma câmera de cinema, caiu no mundo para registrar e revelar um Brasil marginal que o Brasil oficial preferia que permanecesse encoberto.
A produção imagética de Bodanzky é uma das mais inquietas e questionadoras do período e está exposta na galeria 1 do Instituto Moreira Salles¹, na Avenida Paulista, em São Paulo, com um título pertinente: Que país é este? – A câmera de Jorge Bodanzky durante a ditadura brasileira, 1964-1985.
O olhar de Bodanzky nunca é neutro ou distanciado daquilo que observa. E em cada fase do regime ele confere às imagens uma atmosfera correspondente àquele tempo histórico. Por exemplo, numa série de imagens feitas em 1964, Bodanzky registra o Eixo Monumental e o Congresso Nacional. Ele olha para o centro do poder político através da janela de um carro, uma observação clandestina que captura o perigo em portar uma câmera naquele ambiente e momento particular da história brasileira.
Dessa atmosfera fria e ameaçadora, ele parte para um olhar vivo e colorido da vida no interior do país. Em fotografias que foram em grande parte feitas para as revistas Manchete e Realidade, ele retrata as cidades empoeiradas, o barro vermelho, o cotidiano pobre, mas vibrante do sertão nordestino, e daqueles que ficaram à margem do milagre econômico.
A última parte da exposição se concentra na fase mais buliçosa da produção de Bodanzky, com um enfoque nos filmes que dirigiu e que denunciaram a violência do projeto desenvolvimentista da ditadura na Amazônia. A grilagem, o garimpo, o desmatamento, e a violência contra indígenas estiveram no centro da sua produção cinematográfica. O seu primeiro longa-metragem, codirigido por Orlando Senna, Iracema – uma transa amazônica (1974), foi censurado – é uma ficção-documental sobre o faraônico empreendimento dos militares que diziam levar progresso para a região, mas que gerou a destruição do ecossistema e criou uma massa de miseráveis trabalhando na extração ilegal.
Sob censura, Bodanzky passou a produzir com o apoio de produtoras europeias. Ele mostrou o clima de terra arrasada deixada pelos militares em filmes como Gitirana (1975), também codirigido por Orlando Senna. O filme disseca o impacto da barragem de Sobradinho, na Bahia, um projeto que levou à expulsão de milhares de moradores da região. Terceiro milênio (1981), codirigido por Wolf Gauer, e Igreja dos Oprimidos (1986), codirigido por Helena Salem, foram feitos nos últimos suspiros do regime, e retratam conflitos de terra. Que não se confunda a ida à exposição como uma viagem ao passado. Visitar a obra de Bodanzky é enxergar o presente. Um registro acachapante que fica em exposição gratuita até o dia 28 de julho.
¹ O fundador da piauí é presidente do conselho do Instituto Moreira Salles (IMS)