piauí recomenda
Out 2024 14h48
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Na taxonomia da indústria fonográfica, existe um cacoete irresistível quando se quer falar de uma nova vertente que surge de outra já estabelecida, mas que, ao mesmo tempo, rompe com essa tradição: usar o prefixo “pós” ou “post”. Tem pós-punk, post-hardcore, post-metal. O disco The Rivals Are Fed and Rested, a estreia solo de Yohan Kisser, poderia ser facilmente chamado de pós-MPB, ou, em meio a centenas de discos e singles genéricos pelas redes adentro, também de pós-algorítmico.
Lançado no último dia 18, o álbum do rebento do meio do guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura, começa com a levada jazzy e os acordes dissonantes evocativos da música-tema. Na sequência, vem o emotivo e soturno single Membro fantasma. O nome, emprestado da síndrome que acomete quem teve algum membro amputado cuja presença ainda sente no corpo, é uma homenagem que Yohan faz à sua mãe, Patricia Perissinotto Kisser, a Pat, que morreu em julho de 2022 por conta de um câncer no cólon. Ao som das vozes de Tatiana Abdo, Carina Assencio e Mariana Benassi, Kisser faz as notas do piano gotejarem como lágrimas pesadas.
Apesar da sua ascendência vir do heavy metal (ele toca guitarra no grupo Sioux 66 e no Kisser Clan, com o pai), o trabalho do compositor e multi-instrumentista paulista de 27 anos – que gravou vozes, guitarras, violões e teclas, além de também pintar o seu autorretrato da capa – vai muito além do estilo musical que conhece desde o berço. O disco segue bastante essa dinâmica inicial de contrabalancear músicas de grooves mais quebrados e dançantes (como Rosa Fúcsia, Não encontros, Flush if you must, Tall being e Loan shark) com outras mais experimentais (A tábua e o metro e Passou das seis) e emotivas (Quantas línguas e Os supérfluos e a supernova). Há algumas influências óbvias no disco, como a banda brasileira Karnak (o André Abujamra, líder do grupo, fez participação num EP que o músico lançou no ano passado), Tom Jobim e Frank Zappa. Mas há também influências mais sutis e clássicas, como Bach, Ravel, Debussy e Stravinsky. “Desde que eu passei a escutar artistas mais progressivos, como Zappa e Yes, eu passei a estudar o violão clássico, como Leo Brouwer e Villa-Lobos. Todo esse repertório se misturou muito em mim e acabou saindo um pouco de tudo isso [no disco]”, diz Kisser, esse pós-tropicalista.