piauí recomenda
Ago 2024 10h56
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Ao entrar no teatro, se ouve uma música alta, animada, feita por uma banda. O clima é de uma balada ou bar de jazz. Denise Fraga e Tony Ramos caminham pelas poltronas e conversam com a plateia. Não é um papo protocolar. A atmosfera de convívio é familiar, como se estivéssemos numa casa do subúrbio do Rio ou da periferia de São Paulo. A possibilidade de se falar com quem só se vê na televisão – a última vez que Ramos esteve nos palcos foi há vinte anos –, e a frequente presença de celebridades na plateia torna a mistura mais potente ainda. E isso convive com o sentimento de “eu te conheço desde criança”, quando se cruza com Fraga.
Os dois são os protagonistas da peça O que só sabemos juntos, que fica em cartaz até 18 de agosto no teatro da PUC-SP, o Tuca (as sessões acontecem às sextas, sábados e domingos). Fraga e Ramos encarnam um casal em crise, e a história se mistura com relatos biográficos, que trazem versões pouco conhecidas dos atores para o público. Discussões contemporâneas – feminismo e aquecimento climático – também são fermento para o espetáculo, assim como a história dos espectadores, ouvidas ali, no agora.
O ritmo da peça é um morde-e-assopra bem engendrado, que, por meio de um teste inicial com a plateia (“Quem lembra da primeira transa? Do primeiro beijo? Quem já traiu?”) faz emergir uma identificação com questões mais amplas. Perguntas que podem parecer banais (“Quem veio de carro? E de ônibus? E a pé?”) acabam por remeter a diferenças sociais mais profundas. A circulação dos artistas pela plateia – o que não acontece só no início – segura a atenção dos espectadores e impede a plateia de se distrair.
Em uma apresentação no meio de julho, Ramos, depois de duas cirurgias no cérebro, se soltava ao longo da peça, como se acostumando novamente ao palco, e Fraga era como um ser nato do teatro. No começo de agosto, em outra apresentação do espetáculo, já havia outro balanço. Ramos estava solto desde o início e agora, quando dançava em ação, também provocava de forma terna a colega.
Para além das serpentinas merecidas, há uma questão com o projeto luminotécnico. Na última vez que a reportagem da piauí assistiu ao espetáculo, havia uma luz mais marcada, que criava sombras no rosto de Fraga, em momentos de ação conjunta dela e de Ramos. O ponto de vista era de quem não estava no centro da plateia, o que acontece com a maior parte do público – por isso, tão importante de ser destacado.
Se o teatro está em crise, não é ali. “Será que eles beberam do passado dos vaudevilles?”, é uma pergunta que fica. O ponto alto da peça é uma discussão mais longa do casal, em que aparecem falas como: “Tá chato, agora é tudo não, não.” Se em um momento se ouvem risos, depois a plateia prende o ar. E não há spoiler que dê conta dessa virada na peça, porque se a intenção foi uma, o jogo só se completa com a reação de cada espectador, assombrada ou não.