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Fev 2023 11h50
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Era Dia de Todos os Santos em Portugal e logo cedo as igrejas e as ruas de Lisboa se encheram de gente naquele 1º de novembro de 1755. Pouco depois das 9h30, “ouviu-se um ruído cavo e grave”, e a Terra começou a tremer. Durante mais de sete minutos, um terremoto de impacto gigantesco (magnitude entre 8,7 e 9 na escala Richter, estima-se) atingiu a cidade. A tragédia prosseguiu com um maremoto que cuspiu ondas imensas na capital portuguesa, enquanto um incêndio espalhava-se por todo canto. Ao fim do dia, Lisboa era um cenário do fim dos tempos: boa parte dos prédios havia sucumbido por causa do tremor, outros estavam sendo devorados pelo fogo. Era impossível contar os mortos. Calcula-se que a tripla catástrofe matou mais de 10% dos 250 mil habitantes.
O terremoto de Lisboa é um dos mais trágicos da história e o mais célebre de todos. Ele não apenas levou à recriação urbanística da cidade, como mudou a história de Portugal e afetou espiritualmente toda a Europa e a cristandade, bem como politicamente, fazendo-se um emblema temporal do início do fim do Antigo Regime. A própria filosofia praticamente cindiu-se em dois tempos – antes e depois do sismo –, com debates acalorados que abriram caminho ao Iluminismo.
Existem dezenas de livros sobre a terrível catástrofe, mas um dos mais completos tem esse título ironicamente modesto: O Pequeno Livro do Grande Terremoto, escrito pelo historiador (e ex-deputado) português Rui Tavares, recém-lançado no Brasil pela editora Tinta-da-China. Em 244 páginas, Tavares vasculha com incrível desenvoltura e acurácia todas as dimensões e consequências da tragédia – científicas, sociais, urbanísticas, políticas, religiosas e filosóficas. A capacidade de síntese do autor, seu foco no essencial, a escrita envolvente e a força da análise e da reflexão tornam a leitura fascinante e oportuna, pois há sempre o que aprender com as catástrofes – e o terremoto de Lisboa deixou lições fundamentais.