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Set 2024 09h37
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O Outubro (2024) é uma das mais de cinquenta obras que a paulistana Fernanda Valadares apresenta na exposição Liberdade É Pouco, em cartaz no Centro Cultural Octo Marques, na região central de Goiânia.
Nessa obra, uma escada é a protagonista. A pintura é composta de dois desenhos – em ambos a escada aparece numa sala, mas à frente e ao lado dela não há nada. Nem objeto nem bicho nem pessoa. O ambiente vazio prende quem olha. O silêncio parece ser induzido pela transparência da composição, aspecto obtido pela técnica que a artista usa, a encáustica – um preparado de cera que serve de aglutinante ao pigmento usado na pintura.
O teto, que no primeiro desenho é mais baixo, ganha mais altura no segundo. Há um quê de liberação nessa diferença, acentuada por uma luz mais clara que aparece sob a escada no segundo momento.
Os degraus da escada são marrons, assim como o guarda-corpo, que envolve a estrutura e lembra um casco de proteção. O guarda-corpo, de aspecto oxidado, induz uma investigação sobre que material seria aquele, caso a cena fosse real. Talvez aço corten.
Outubro faz parte da série Espejismo. Valadares diz que o ponto de partida do trabalho foi um “render”, projeto arquitetônico em formato digital. “Fiquei pensando nas pessoas que constroem casas grandiosas e depositam todos seus sonhos nisso. É lógico que isso não se concretiza e as pessoas ficam presas a essa expectativa”, diz a artista.
Na inédita série Carceri (título é emprestado do italiano), o tema do aprisionamento se torna mais literal – a artista se inspira em imagens de prisões, a exemplo do Carandiru. A sensação de isolamento igualmente pode tomar forma nas obras a partir do meio ambiente, quando formações rochosas se conformam como obstáculos para ver o que está além. Mas às vezes a sensação transmitida por outras obras de Valadares consiste em justamente o oposto de aprisionamento. Na série Outeiros, por exemplo, que traz as formações rochosas, o tríptico formado por Sincorá, Órgãos e Cipó, todos de 2024, nos permite ver a paisagem-amálgama de forma contínua e vagarosa, tal como se apresenta em uma janela de ônibus, durante uma viagem – o que traz um certo apaziguamento do espírito.
Percebidas como isolamento ou como transcendência, as obras de Valadares geralmente pedem uma investigação, nos engajam e nos levam a reflexões existenciais.