piauí recomenda
Fev 2023 11h48
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O chileno Benjamín Labatut iniciou sua carreira emulando de maneira muito evidente as estratégias literárias de seu conterrâneo Roberto Bolaño. Mas, como às vezes ocorre na formação dos artistas, a imitação é um jeito de treinar a mão e incorporar um repertório de procedimentos que depois desembocam na conquista de uma assinatura estilística própria. Assim, ele chegou ao formidável Quando deixamos de entender o mundo – uma coleção de biografias semificcionais de cientistas, matemáticos e físicos brilhantes, onde as trajetórias são apresentadas em sua proximidade a um eixo delirante, mostrando gente racional em seus desvios, gravitando ao redor das incógnitas da irracionalidade e de resultados científicos destrutivos, muitas vezes imorais.
Agora, nos dois ensaios que constituem A pedra da loucura, Labatut expõe algumas reflexões acerca de seu livro anterior e seu sucesso. Mais uma vez, dribla expectativas, surpreende, instiga. A forma ensaística solicita a presença do autor, que se mostra manejando incidentes de seu cotidiano. Os temas estão muito próximos de nós: os levantes populares chilenos por mudança política em 2019 e a ascensão do reacionarismo, a pandemia e seus efeitos, o avanço de teorias conspiratórias nas redes sociais, os terraplanistas e os influenciadores digitais. É uma edição muito oportuna, com tradução excelente de Mariana Sanchez – um livro pequeno que dá para ler de uma sentada, e há de interessar os que leram o anterior.
A pegada é leve, mas não é leveza de afago: parece mais a habilidade do cirurgião que manuseia um bisturi com conhecimento de causa. Labatut acerta ao recordar que o horror não é novidade, enfatizando a extensão dos crimes cometidos pela ditadura militar chilena de maneira que serve para retratar a nossa sinistra ditadura também. Seu retrato do espírito do tempo não é produzido por quem contempla a miséria alheia do conforto de um camarote distante: “Certa demência se infiltrou no mundo, gota a gota, e está ganhando cada vez mais força. Já não podemos simplesmente desdenhar a paranoia, nem podemos confiar, com absoluta certeza, que a ciência – ou mesmo nossos próprios sentidos – será capaz de nos mostrar o mundo como ele é.” Em vez de pontificar, explicando as coisas, descreve o mundo que partilha conosco, com o qual se surpreende e se atrapalha. Faz isso com as artimanhas do narrador habilidoso: ao penetrar no imaginário bizarro de uma youtuber cheia de teorias conspiratórias, Labatut nos envolve num breve e trágico thriller, que segue irresoluto, mas nos convence de que somos personagens da história que acabamos de ler.