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BODANZKY RETORNA À AMAZÔNIA

Em tom assumidamente ativista, diretor denuncia a contaminação dos Munduruku pelo mercúrio do garimpo
Imagem Bodanzky retorna à Amazônia

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Em mais de meio século de cinema, o diretor paulistano Jorge Bodanzky ajudou a calibrar o olhar do Brasil para a Amazônia. Ele chamou a atenção para a ocupação predatória da floresta em filmes como Iracema – Uma transa amazônica, de 1974, que foi restaurado recentemente e continua perturbadoramente contemporâneo. O filme deixava claro que a opção do Brasil por derrubar a floresta para promover desenvolvimento acabaria trazendo devastação, violência e miséria – e foi exatamente o que aconteceu.

Seu filme mais recente a tratar do tema é Amazônia, a nova Minamata?, documentário produzido pela Ocean Films[1] que estreou em setembro e está em cartaz nos cinemas. O diretor apresenta ali um efeito perverso do crime ambiental: a contaminação por mercúrio, um mal invisível que está trazendo problemas de saúde graves para indígenas e ribeirinhos que vivem em territórios onde há garimpo ilegal. Para ilustrar a proporção que a crise pode ganhar, Bodanzky traça o paralelo com uma das maiores tragédias socioambientais do século XX, que aconteceu em Minamata, no Japão. A partir dos anos 1950, apareceram ali milhares de casos de uma síndrome neurológica grave que, conforme se descobriu mais tarde, era causada pela contaminação do mercúrio despejado ao longo de décadas na baía de Minamata pela indústria química Chisso. Tremores, convulsões e dificuldade de locomoção e fala estão entre os sintomas da doença de Minamata, que provocou o nascimento de toda uma geração portadora de malformações congênitas – e agora parece ter chegado ao Brasil.

Um quadro parecido ao que tinha sido visto no Japão tornou-se frequente entre os indígenas do povo Munduruku, no Pará. Só que, ali, a fonte da contaminação é o mercúrio usado para a extração de ouro no garimpo ilegal, que vai parar nas águas do Rio Tapajós. Em 2016, quando estava fazendo uma filmagem entre os Munduruku, Bodanzky soube por um médico neurologista que um número excepcional de cadeiras de rodas havia sido encomendado para atender a crianças indígenas com problemas de locomoção, e decidiu investigar a história que culminou em seu novo documentário.

Se IracemaUma transa amazônica era um filme híbrido a meio caminho entre a ficção e o documentário, Amazônia, a nova Minamata? é um documentário assumidamente ativista. Bodanzky e sua equipe foram a campo documentar o estrago que a contaminação por mercúrio está causando entre os Munduruku. Viajaram até o Japão para encontrar os sobreviventes de Minamata e documentar a luta de seus parentes por justiça e reparação. Acompanharam os pesquisadores da Fiocruz que estão investigando a doença entre os indígenas brasileiros e seguiram Alessandra Korap, uma das principais vozes na defesa dos direitos dos Munduruku, numa viagem a Brasília para denunciar o envenenamento do seu povo. Com cenas arrebatadoras em cada uma dessas locações, Amazônia, a nova Minamata? mostra a urgência do combate efetivo ao garimpo ilegal e reafirma o lugar de Bodanzky como cineasta incontornável do colapso da Amazônia.

[1] O filme tem coprodução da Globo Filmes e GloboNews, e produção associada da VideoFilmes, produtora audiovisual da qual      o fundador da piauí detém participação acionária.


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