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COMO CHAVES SE TORNOU UM SUCESSO

A audiossérie Segredos do Barril conta os trâmites políticos que permitiram que a série ganhasse vida
Imagem Como <i>Chaves</i> se tornou um sucesso

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No início dos anos 1980, o Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT, recebeu uma caixa de fitas da Televisa. O ainda novo e humilde canal de Silvio Santos teria a licença para exibir as novelas da gigante mexicana desde que, junto delas, o canal também adicionasse à programação o programa de um adulto de 42 anos que interpretava uma criança órfã e surrada que vivia dentro do barril de uma vila pobre. Ao mostrar o material para os seus executivos, Silvio Santos ouviu deles que o material era muito ruim, com piadas muito bobas e produção precária demais para o que pretendiam com o canal. Mas ele veiculou o programa mesmo assim. Foi assim que Chaves foi exibido pela primeira vez no Brasil, em 1984.

Essa história é destrinchada na audiossérie Segredos do Barril. A versão em português da série é narrada por Michel Arouca, e conta os detalhes de como o maior programa de humor da América Latina, que chegou a desbancar novelas e telejornais da TV Globo na audiência, fez sucesso no Brasil e no mundo. Mas a série tem um diferencial, um belo trunfo. Ao contrário da atual série biográfica da HBO Max – Chespirito: Sem querer querendo – que se concentra mais no arquétipo de “gênio incompreendido” do criador da série Roberto Bolaños, e em polêmicas de natureza pessoal, Segredos do barril explora mais os trâmites políticos que permitiram que a série pudesse ganhar vida.

Logo no início a audiossérie já escancara que, além de ter sido um trabalho artístico considerado anacrônico em sua época – em parte por se valer de um humor físico ultrapassado e por abusar da encenação de violência física contra crianças – , a série só aconteceu por conta da relação simbiótica entre Bolaños, o virulento empresário Emilio Azcárraga Milmo (dono da Televisa) e o governo mexicano. Esse caminho político conservador ficaria mais evidente quando, em 1977, durante a ditadura de Pinochet, ocorreu a mais infame e criticada das apresentações do grupo: no Estádio Nacional do Chile, onde o regime militar prendeu e torturou cerca de 20 mil chilenos.

Apesar de suas virtudes históricas, a audiossérie dá umas escorregadas em algumas típicas “nascas de bacana”. A narrativa confunde Guadalajara com Acapulco e chega a afirmar que o programa não falava nada sobre consciência de classe, o que está longe de ser verdade. Para citar apenas um exemplo, em um dos episódios há uma greve para que o Chaves passe a receber um salário no restaurante de Dona Florinda, onde trabalha como garçom (e ele ganha). Além disso, tanto o menino mais pobre do programa – o Chaves – quanto o mais rico – o Nhonho – estudavam na mesma escolinha. De forma mais geral, muitas das piadas tiram sua graça da hipocrisia burguesa de muitos personagens. Parafraseando mais uma vez a série, Chespirito era conservador, mas não fanático.


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