21 Set 2026
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A partida já durava mais de 4 horas e o argentino Mariano Navone vencia o quinto e decisivo set por 3 games a 1, em sua partida de estreia do US Open, (o Aberto de tênis dos Estados Unidos), na noite do último dia 30 de agosto. Do outro lado da quadra estava Novak Djokovic, aos 39 anos, numa cena que ficaria marcada: o maior campeão da história do tênis mundial chorando copiosamente, enxugando as lágrimas em sua munhequeira. O último set terminou com o placar de 6 a 1 para Navone, e Djokovic deixou o US Open, a primeira vez em vinte anos que perdia na primeira rodada de um Grand Slam.
É impossível não pensar nessa derrota recente ao ver as primeiras cenas de Novak Djokovic: lobo no inverno, documentário do Prime Video que estreou no último dia 20 de agosto na plataforma, lançado apenas dez dias antes do choro de Djokovic em quadra. “Novak não vai passar o bastão pra ninguém, você tem que tomá-lo dele”, diz um dos depoimentos iniciais.
O documentário começa mostrando a sua conquista do ouro olímpico para a Sérvia, vencido nas Olimpíadas de Paris 2024, no saibro de Roland Garros. Na época, era o único triunfo que lhe faltava na carreira. Mas o sérvio, como a maioria dos atletas de alto nível de esportes individuais, sempre encontra um novo objetivo, algo para querer superar. “Nunca é o suficiente”, ele diz.
Há em seguida um recuo cronológico, com cenas da infância de Djokovic no final dos anos 1990. Quando começou a jogar tênis, seu país (à época ainda parte da antiga Iugoslávia) estava envolvido na Guerra da Bósnia, e alguns anos depois a Sérvia sofreu bombardeios intensos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - tema discutido em depoimentos de seus pais, do irmão, de colegas e de sua primeira treinadora: Jelena Genčić. Com o faro aguçado, ela disse para a família que dali sairia um vencedor do tênis. Todos os investimentos da família passaram então a ser direcionados à sua futura carreira como tenista. Em 2005, aos 18 anos, Djokovic entrou na quadra do US Open pela primeira vez. Em pouco tempo, já estava desafiando a dupla de titãs do tênis das primeiras décadas do século – o espanhol Rafael Nadal e o suíço Roger Federer. Eventualmente, Djoko os superou, se tornando o tenista que permaneceu mais tempo como número 1 do ranking da ATP (Associação de Tenistas Profissionais).
A chegada de Djokovic ao universo do tênis incomodou e encantou, e é isso que o torna um personagem tão interessante. O lado brincalhão (de imitar o trejeito de outros jogadores, por exemplo) sempre se misturou a um lado mais provocador, e a métodos na quadra que eram questionados no início da carreira, como sua tendência em pedir atendimentos médicos em momentos difíceis das partidas. Em 2022, Djokovic viveu uma de suas maiores polêmicas quando foi deportado da Austrália por não ter se vacinado contra a Covid, e o documentário não se furta a explorar esse episódio. O documentarista Jason Hehir conseguiu acesso privilegiado ao tenista, acompanhando-o novamente no torneio em 2026, quando chegou à final e perdeu para Alcaraz (Djokovic é o maior vencedor do Aberto da Austrália na história, com dez títulos). O filme mistura esses episódios da carreira do jogador com reflexões de sua vida pessoal com os filhos e a mulher.
инат (pronuncia-se “inat”) é uma palavra sérvia que significa uma teimosia desafiadora diante de adversidades ou dificuldades. Djoko diz que se alimenta disso para continuar enfrentando seus adversários e a si próprio, com os problemas físicos. No dia seguinte à derrota no US Open, ele anunciou que entrará em quadra de novo nos grandes torneios de 2027, quando terá 40 anos.