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Nov 2022 11h21
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Argentina, 1985 conta a história verídica do procurador Julio Strassera, responsável por liderar o processo judicial contra os principais oficiais envolvidos na repressão civil da última ditadura militar argentina (1976-1983). Após o retorno da democracia ao país em 1983 e a eleição do presidente Raúl Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), a sociedade argentina vivia um dilema entre punir exemplarmente os oficiais e fortalecer a nova democracia, ou ceder a uma espécie de anistia para evitar o risco de nova instabilidade na recém-inaugurada República. No fim, o judiciário argentino decide levar o caso à instância civil, num gesto inédito – até então, oficiais de alta patente eram sempre julgados por tribunais militares.
Os admiradores da inventividade formal do cinema recente argentino talvez se surpreendam com a convencionalidade narrativa do filme. O longa de Mitre tem cenas de tribunal feitas para emocionar, pequenas doses de humor (encaixadas para aliviar a gravidade do tema), e outras escolhas estéticas que, apesar de se prestarem a homenagear as vítimas da ditadura, às vezes flertam com certo barateamento da experiência trágica dos desaparecidos e torturados. Ainda assim, o filme ganha força pelo contexto da última década na América Latina, onde a recusa em lidar com fantasmas de períodos autoritários levou muitos países a se deparar novamente com eles (o Brasil sendo talvez o maior exemplo desse fenômeno). Ao se debruçar sobre os detalhes da vida dos personagens – a relação de Luis Moreno Ocampo, procurador parceiro de Strassera, com a própria mãe, por exemplo, que era amiga de generais e apoiadora da ditadura –, Mitre dá carne a dilemas que até há pouco pareciam distantes no tempo.