piauí recomenda
Dez 2023 14h58
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Tudo É Grande Demais para a Pobre Medida da Nossa Pele, livro do escritor pernambucano Bernardo Brayner, é uma ficção em forma de almanaque que se inspira em obras como O Livro dos Seres Imaginários de Jorge Luis Borges, A Literatura Nazista na América, de Roberto Bolaño, e, mais recentemente, Pequena Enciclopédia de Seres Comuns, de Maria Esther Maciel. A diferença é que, no lugar de curtas biografias ou do inventário de plantas, animais exóticos e seres míticos, estamos diante de uma inventiva biblioteca de obras jamais escritas.
Para trazer esses livros à realidade concreta, ao mundo que conhecemos, o autor inventa o personagem Julian Cardoni, um crítico colombiano de quem Brayner seria uma espécie de amanuense. Além de compilar “clássicos invisíveis” da história da literatura, Cardoni assina o “prefácio curtíssimo” e o posfácio nada esclarecedor dessa antologia de resenhas breves. Tudo É Grande Demais para a Pobre Medida da Nossa Pele também conta com fotografias, entrevistas, trechos lapidares e capas das obras: um sistema literário em miniatura.
Alguns dos livros imaginados pelo autor têm premissas assombrosas: um Deus amputado que cria o mundo à sua imagem e semelhança, um cocheiro conduzindo uma “carruagem puxada por um bezerro, um porco, um cachorro e um homem nu”. Outros nos fazem rir às gargalhadas, como o romance distópico em que escritores mortos voltam a circular como zumbis, naturalmente tendo outros escritores como alvos: Nabokov “teria destroçado a dentadas o pescoço do morto-vivo que outrora fora Dostoiévski”, enquanto Poe “tremia como se sofresse de febre”. Dos grandes nomes do cânone ocidental, só Kafka prefere não se levantar da tumba, se limitando a piscar os olhos timidamente.
Os livros que nascem da fértil imaginação de Brayner são muito diferentes entre si, tanto no tema como no estilo. Mas há um traço que os une. Para os escritores que povoam esse universo feito só de palavras, a literatura é o que existe de mais importante, a única realidade possível – e por esse motivo ela é apenas uma outra palavra para denominar o que nos habituamos a chamar de “vida”.