piauí recomenda
Dez 2022 11h40
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Exceto pelas franjas mais radicalizadas, é consenso no debate público brasileiro que a gestão Bolsonaro deixou o país em frangalhos, sob vários aspectos. Desordem orçamentária, desmonte de políticas públicas historicamente eficazes, sequestro de órgãos de fiscalização e de persecução penal, vistas grossas à corrupção. Como repórter, fui testemunha ocular de parte desse estrago bolsonarista: seja no aparelhamento das polícias Federal e Rodoviária Federal, reduzidas a forças auxiliares dos interesses mais obscuros do atual presidente; seja no sucateamento intencional do Ibama com o claro propósito de liberar a ação predatória de grileiros e desmatadores na Amazônia.
Mas o descalabro bolsonarista é anterior e mais profundo do que sua ascensão ao poder no período 2019-2022. É, antes de tudo, uma expansão narrativa inexorável da extrema direita, que ao longo da última década dividiu o país ao ponto de uma quase ruptura. Na tentativa de entender como essa bad trip começou, mergulhei nas ideias do ensaísta Francisco Bosco em seu ótimo livro O Diálogo Possível. Sem pedantismos, Bosco se vale de conceitos filosóficos, sociológicos e políticos para, nas palavras do escritor Paul Valéry, promover uma “limpeza da situação verbal” no debate público para aproximá-la da realidade.
Creio ser dever de todo jornalista (e tantas outras profissões) compreender a fundo o contexto sociopolítico em que desempenha seu papel profissional. Bosco não só fornece um diagnóstico preciso da profunda crise em que o país está mergulhado como lança argumentos poderosos em busca de soluções concretas por meio de um diálogo aberto, franco, socrático, entre lados que, à primeira vista, parecem inconciliáveis.