piauí recomenda
Dez 2023 15h25
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Um explorador e arqueólogo europeu viaja ao Peru e à Bolívia no final do século XIX, fornece muito material para as coleções etnográficas dos museus franceses e escreve um clássico da literatura de exploradores. Um de seus descendentes se torna jornalista e militante de esquerda no Peru no século XX, com uma secreta vida dupla, dois relacionamentos e duas famílias. Uma das filhas desse jornalista faz carreira como escritora, sempre falando de si mesma, de maneira radical e desafiadora. Trata de sexualidades alternativas em um livro-reportagem de grande sucesso (Sexografias), da própria gravidez (Nove Luas) e, no recém-lançado Exploração, recapitula as vidas entrelaçadas de Charles Wiener (1851-1913), seu tataravô explorador, Raúl Wiener (1949-2015), seu pai jornalista, e dela mesma, Gabriela Wiener.
Não parece haver um espaço sequer da vida de Wiener que seja simples ou que esteja bem: tudo parece tocado pela presença potencial da crise, próximo de um despenhadeiro, marcado por ambivalências. Ela lamenta as posturas etnocêntricas, racistas e brutais do tataravô, mas também se deixa encantar em alguma medida por ele. Sofre terríveis ciúmes de sua companheira, ao mesmo tempo que questiona seu desejo por uma mulher que é mais jovem, europeia, branca.
Não há dúvida: estamos nos domínios da autobiografia, e apartados dos pactos ambíguos da autoficção. Mas a subjetividade que narra está longe de ser una e indivisa: é plural e labiríntica, cheia de falhas e fendas, como a história que a construiu e como a que ela tenta, aos trancos e barrancos, construir hoje, em seus experimentos consigo mesma. Wiener cita um intérprete dos escritos do seu tataravô que o descreve como alguém que teria feito uma “arqueologia novelesca”. Essa ideia funciona como uma boa descrição para esse livro, no qual a autora peruana, no processo de fazer uma “exploração” das vidas alheias, escava insistentemente a sua própria.