MADONNA EM RENOVAÇÃO

Em Confessions II, cantora festeja a própria trajetória sem abrir mão de novas referências
Imagem Madonna em renovação

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No clássico Babado forte, publicado originalmente em 1999, a jornalista Erika Palomino mergulha fundo nas tensões estabelecidas na pista de dança e mapeia as políticas não escritas da noite paulistana (na reedição do livro, publicada pela Ubu em 2024, Palomino e uma extensa equipe de pesquisa tratam das cenas que extrapolam o Sudeste). Na introdução, a autora escreve: “Toda vez que uma geração se cansa, uma nova aparece, mais disposta a trabalhar virada, a ir a uma festa sem carona, sair sem dinheiro, experimentar drogas diferentes, passar por uma aventura ou uma roubada.” Na noite, há uma capacidade de renovação que lhe é muito própria. Movimento contínuo, espiralar, de revitalização constante, que pode ser explicado com uma frase do historiador Luiz Antônio Simas – “a gente não brinca e festeja porque a vida é mole; a turma faz isso porque a vida é dura” –, trecho utilizado como epígrafe do livro. Muitos personagens aparecem nas duas edições da obra. Alguns já estão mortos, e outros deixaram os inferninhos, mas há também os que continuam a embalar a vida noturna. Estão lá, além disso, as tendências que passaram e as que permanecem norteando as pistas mundo afora. Madonna definitivamente é uma delas.

Em 2006, Madonna lançou um de seus mais celebrados discos, Confessions on a Dance Floor, já na terceira década de carreira. O álbum funciona como um set: as músicas, unidas umas às outras, capturam o espírito non-stop das festas de música eletrônica. A cantora revisitava, àquela altura, a “bibliografia” musical dos anos 1970 que ela própria ajudara a construir.

Passados vinte anos, Madonna lança agora a continuação do álbum – Confessions II –, com músicas que festejam sua trajetória e iluminam sua habilidosa capacidade de renovação, bem similar àquela da noite. Ela abre a sequência dizendo: “Às vezes eu gosto de simplesmente me esconder nas sombras/ Criar uma nova persona/ Uma identidade diferente/ Posso ser quem eu quiser ser/ Sinceramente, eu queria poder ser como as outras pessoas/ E simplesmente não me importar/ Mas aqui fora/ Na pista de dança/ Eu me sinto tão livre.” Os versos sintetizam muito bem sua abertura para novas referências sem abrir mão do que ainda vale fazer – e fazer bem, agora na quinta década de carreira.

Depois de uma seara de discos lançados na última década que tentavam acompanhar novas vertentes da música eletrônica – também mais comerciais –, a cantora retorna às origens que a colocaram no rol de músicos que reinventaram o pop, na década de 1980. E o faz com influências do underground nova-iorquino, dos bailes promovidos pela comunidade LGBTQIAPN+, da música afro-americana que deu origem ao house, ao dance e ao R&B. Com esses elementos à mão, ela consegue traduzir os valores de uma cena inteira em música.


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