piauí recomenda
Abr 2025 12h04
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Charlene vive no paraíso, mas tem uma rotina infernal. Ela mora e trabalha em Maui, segunda maior ilha do Havaí, que abriga um santuário de baleias jubartes, cachoeiras de tirar o fôlego, vulcões majestosos e praias com ondas gigantes. Enfermeira, a jovem enfrenta turnos pesados num pronto-socorro, sob as ordens de um chefe irascível. Quando está em casa, precisa cuidar sozinha do pai idoso e do filho pequeno, Brandon.
Certo dia, um incidente vira de cabeça para baixo o cotidiano de Charlene, que larga o emprego, abdica das tarefas domésticas e resolve passar horas estudando, com a intenção de entrar num curso de medicina. A moça considera que dedicou muito tempo às necessidades dos parentes e agora deseja se concentrar em si mesma. Enquanto mergulha na nova realidade, é surpreendida pela visita do irmão, Robbie, músico recém-chegado de uma modesta turnê por bares australianos. O sujeito, embora simpático, se revela um tanto folgado e não poupa a irmã de críticas descabidas. Ele a julga uma “pirralha” egoísta e negligente.
Eis a trama da graphic novel Mais ninguém, que o ilustrador e cartunista R. Kikuo Johnson lançou em 2021 e que a Alta Books editou recentemente no Brasil. Natural de Maui, onde ambientou outra HQ, Night fisher, de 2005, o autor colabora há quase duas décadas com a revista The New Yorker. Várias capas da publicação trazem desenhos assinados por Johnson, também professor numa das melhores faculdades americanas de artes visuais, a Escola de Design de Rhode Island.
A contenção garante a força e a beleza de Mais ninguém. Em 104 páginas, o livro aborda um problema recorrente nas sociedades patriarcais – a omissão masculina perante as demandas familiares – sem apelar para clichês feministas, digressões sociológicas ou panfletarismos. A maioria dos personagens fala pouco, e o enredo vai se desenrolando em torno de lacunas nunca preenchidas. A principal delas: por que o pai do garoto Brandon é ausente? Uma paleta econômica de cores e os traços nada rebuscados do autor enfatizam o minimalismo da narrativa, cujo tom oscila entre a melancolia e um discreto bom humor.
Mais ninguém também se destaca pela maneira com que retrata o luto. O sentimento paira sobre Charlene, Robbie e Brandon. Os três, porém, nem sempre percebem (ou admitem) que a presença tão eloquente da morte os faz sofrer.
De quebra, o livro denuncia as mazelas ecológicas de Maui. Plantações de cana ocuparam parte significativa da ilha até meados da década passada, quando as poluentes usinas de açúcar fecharam, graças à pressão de ativistas. Hoje, as mudanças climáticas e os estragos resultantes da exploração canavieira desencadeiam longos períodos de seca, que aumentam o risco de incêndios florestais. Não por acaso, em agosto de 2023, o fogo lambeu praticamente toda a cidade de Lahaina, na costa noroeste de Maui, e deixou cerca de cem mortos.
Uma resenha do jornal The New York Times classificou Mais ninguém como “perfeita”. A apreciação é exagerada. Mas nenhum defeito da HQ é capaz de obscurecer as qualidades da sensível história contada por Johnson.