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MUITO MAIS DO QUE UM DIAGNÓSTICO

Estranhos a nós mesmos, livro da jornalista Rachel Aviv, discute por que a psicanálise foi substituída pouco a pouco pela cultura dos remédios
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Há alguns anos, a jornalista americana Rachel Aviv, da New Yorker, foi à Suécia fazer uma reportagem sobre uma doença conhecida como síndrome da resignação. Ela encontrou centenas de crianças de países que haviam pertencido à União Soviética e à Iugoslávia, que não saíam mais da cama depois que a Suécia anunciou que suas famílias seriam expulsas de lá. “Elas não queriam comer. Pararam de falar. Pareciam perder os movimentos. Muitas precisavam ser alimentadas por sonda. Algumas entraram em um estado parecido com o coma”, lembra Aviv. A jornalista se conectou à mudez das crianças refugiadas e começou a repensar a experiência com a anorexia que tivera na infância. Aos 6 anos de idade, Aviv parou de comer de repente. Foi diagnosticada com o distúrbio alimentar e tornou-se a caçula da ala anoréxica de um hospital infantil no estado do Michigan. Já adulta, conseguiu acesso aos prontuários daquela época e notou que, embora a tenham submetido a um tratamento radical, os médicos nunca concluíram a razão de ela ter parado de comer. 

No livro Estranhos a nós mesmos: Histórias de mentes instáveis, publicado no Brasil pela editora Zahar, Aviv analisa que, depois de receber um diagnóstico como o dela, é difícil entender a própria história para além das definições psiquiátricas. “A experiência original não pode ser capturada ou compreendida por si mesmo”, escreve ela. “Pouco a pouco se torna algo que não vem totalmente de nós.” Por “nós”, Aviv está se referindo aos outros personagens do seu livro. Há Ray, um médico bem-sucedido que processou um hospital psiquiátrico de elite por não conseguir curá-lo; Bapu, mulher de uma casta social superior da Índia, mãe de dois filhos, que abandonou a família para buscar elevação espiritual; Naomi, americana negra que foi presa por assassinato após se jogar com seus bebês gêmeos no Rio Mississippi; Laura, uma graduada em Harvard de família abastada, a quem foram prescritos medicamentos psiquiátricos desde que era adolescente; e Hava, uma das colegas da ala anoréxica de Aviv. Para entender como esses sujeitos se veem e explicam a si mesmos, Aviv leu os seus diários e entrevistou os sobreviventes, além de conversar com os médicos, amigos e familiares.

O livro se equilibra entre duas verdades: todos nós temos nossas próprias mentes, nossas próprias experiências, nosso próprio sofrimento; também somos criaturas sociais que vivem entre outros, e as forças coletivas têm pelo menos alguma influência em como entendemos quem somos. A partir daí, Aviv discute as razões de a psicanálise ter sido substituída pouco a pouco pela cultura dos remédios no tratamento de transtornos mentais. Medicamentos psiquiátricos são lançados no mercado depois de testes clínicos que costumam durar menos de doze semanas, mas poucos estudos acompanham por mais de um ano pacientes que fazem uso desses remédios. Aviv, ela mesma, começou a tomar antidepressivo depois que o seu sucesso como repórter demandou mais interações com pessoas que ela achava intimidadoras. “Meus primeiros seis meses tomando Lexapro provavelmente foram o melhor semestre da minha vida”, diz a jornalista, que até hoje tenta fazer o desmame da medicação. Ela sugere que continuamos – médicos, pesquisadores, sociedade em geral – apegados a teorias reducionistas sobre o funcionamento químico do cérebro porque é mais difícil compreender que doenças mentais são causadas por uma interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos e até ambientais.


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