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Fev 2023 11h47
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2022 foi o ano do centenário da morte de Lima Barreto, e entre os livros, artigos e ensaios que surgiram para homenagear o autor canônico, o romance Uma Temporada no Inferno, de Henrique Marques Samyn, foi das obras mais instigantes. No livro, um narrador não nomeado decide se internar voluntariamente no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, a mesma instituição onde Lima Barreto se internara décadas antes, no início do século XX. As anotações de Barreto viraram o Diário do Hospício, livro publicado após sua morte. Diário do Hospício, por sua vez, era uma espécie de preparação para um romance inacabado, O Cemitério dos Vivos.
O narrador não nomeado de Samyn almeja de alguma forma repetir os passos do ídolo, e ao mesmo tempo superá-lo. Diz que irá “muito além de onde L.B. ousou ir, porque retomarei as suas ideias, mas concluirei a tarefa que ele deixou pela metade”. E segue: “L.B. não conseguiu escrever sobre a loucura porque não se aproximou dela o bastante.” O projeto é contraditório: se internar de forma racional para se aproximar o máximo possível da irracionalidade, colocando um pé na beira do abismo, mas sem cair nele. É quase uma metáfora para a própria literatura. O projeto megalomaníaco do narrador, combinado às anotações fragmentárias sem cronologia linear, dão a impressão inicial de um admirador fanático. Discorrendo sobre o gosto de Barreto pela cor azul, ele diz: “Ninguém percebeu isso; ninguém além de mim. Posso afirmar, sem qualquer possibilidade de erro, que sou o maior conhecedor de sua obra.”
O leitor é sempre uma espécie de louco, presumindo que conhece o autor melhor do que ninguém. Mas o narrador de Samyn é também um observador astuto, de prosa célere e seca, que o tempo todo nota a ambiguidade da fronteira entre a loucura e a sanidade – conceitos que mudam ao bel-prazer da sociedade e seu tempo. E nisso se inclui a loucura eugenista das teorias raciais do início do século XX, feitas em nome da ciência. Samyn – que, como seu narrador e como Barreto, é um autor negro – inclui nas anotações do personagem menções a essas teorias, e assim há uma inversão que permeia o livro. Barreto, um dos primeiros autores a questionar tais teorias, não foi levado a sério na época; e os autores eugenistas de então, agora considerados racistas, já foram a régua do que em certo momento foi considerado “são” . O desamparo dessa constatação, mesmo quando não aparece no livro, nutre o diário do narrador.