piauí recomenda
Ago 2025 18h03
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Se Lena Dunham, autora da famosa série americana Girls, fosse uma dramaturga brasileira, jovem e carioca, é bem provável que se pareceria com Lara Bereta. A peça de estreia de Bereta, O dia em que vão embora, dirigida por João Gofman, segue uma escritora engasgada em seu processo criativo, se debatendo para dar continuidade a um roteiro que mescla ficção e realidade. A peça pode ser vista como um comentário à onda de literatura autoficcional das últimas décadas ao passo que também faz parte dela.
Assim como Hannah – protagonista do show televisivo americano que foi exibido entre 2012 e 2017–, é uma caricatura de Dunham, a Autora (modo como a protagonista é nomeada na peça) é também um pedaço da autora. Seu irmão, seus pais, a primeira menina por quem se apaixonou, o último caso romântico, e, por fim, o bebê que perdeu, são todos personagens do relato. É um enredo um pouco gasto, já que esses retratos de jovens-adultos são bem comuns. No entanto, os Atores do Fim, coletivo responsável pela montagem, dão vitalidade à peça. Parecem viver seus papéis no calor da hora, com um sem-número de piscadelas que dialogam com o espectador mais jovem, mas que também conversam com os que já atravessaram essa fase de vida, a duríssimas penas. Não é uma fase fácil, mas nem por isso há de ser triste: a trilha sonora é tão elétrica quanto a rapidez com que se vive quando se tem vinte e poucos anos.
Com acidez e honestidade, os oito atores em cena desmontam e remontam o cenário no palco – uma sala de apartamento com mesa de jantar, sofá, e uma estante de livros, um cenário austero que evoca a solidão desmedida que guia toda a peça. No fim, o que temos é uma mulher sozinha numa idade difícil, permeada por uma série de perguntas sem respostas. Principalmente a endiabrada “e se?”