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O AMOR FRATERNAL NA OBRA DE VALTER HUGO MÃE

Deus na escuridão, o livro mais espiritual do autor português, reflete sobre o espelhamento entre irmãos
Imagem O amor fraternal na obra de Valter Hugo Mãe

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Ao ler Deus na escuridão, do escritor português Valter Hugo Mãe, não pude deixar de pensar no meu irmão mais novo. O livro reverencia o amor fraternal ao contar a história de duas crianças que moram junto de seus pais na Ilha da Madeira, em Portugal. Logo nas primeiras páginas o leitor se depara com a euforia do narrador, o irmão mais velho que, já no fim da infância, descobre que terá um irmão. Mas, no caso do narrador de Hugo Mãe, há um detalhe fundamental: o caçula nasceu com a saúde frágil e “sem as origens”, sem os órgãos genitais, o que o torna alvo dos olhos curiosos dos habitantes da ilha.

A família vive imersa numa comunidade religiosa e pobre marcada pela violência de classe. Em meio ao falatório sobre a condição física do menino e às dificuldades da labuta diária, a narrativa acaba por evidenciar o amor fraternal, traduzido pelos atos de cuidado e proteção com o caçula. Hugo Mãe reflete sobre o espelhamento entre irmãos, e nos provoca a considerar se podem amar um ao outro como as mães amam os filhos. Tudo isso embalado pela poética encantadora do autor, que potencializa a identificação com o livro dos leitores que têm irmãos. Quem me avistasse no metrô a caminho do trabalho com este romance pensaria até que estava apaixonada, pois me peguei em diversos momentos sorrindo durante a leitura.

Ao mergulhar num personagem católico, que faz uso da linguagem religiosa enquanto narrador, esta pode ser considerada a obra mais espiritual do autor português. Ao mesmo tempo que o irmão caçula é considerado estranho pelos outros, também é como se fosse um santo. A repercussão da malformação do menino e a aceitação do que é fora do comum em grupos religiosos são pontos cruciais da narrativa. Mas, para além do sagrado, Hugo Mãe também se aprofunda em questões seculares, como o trabalho infantil e a falta de direitos básicos na região. O olhar delicado e ingênuo do narrador de Hugo Mãe nos entrega uma das mais bonitas obras já feitas sobre relações fraternais.


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