28 Mai 2026
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O escritor francês Édouard Louis disse que As malditas (Companhia das Letras), romance de estreia de Camila Sosa Villada, foi o livro mais importante sobre sexualidade que ele leu depois da obra de Jean Genet. “Desafia todos os quadros atuais da política e da literatura, é um fragmento de futuro.” Seis anos e três livros depois, a escritora argentina ainda surpreende pelo seu atrevimento singular. Em A traição da minha língua, uma coletânea de ensaios que acaba de ser publicada em português pela Fósforo, Sosa Villada declara: “Já paguei o preço, é hora de escrever o que me der na telha, mesmo que isso não agrade ninguém.”
Os ensaios, curtos e poéticos, se concentram na sexualidade e no ofício de escritora da travesti argentina. Uma pequena Camila aparece no início do livro, ouvindo os pais fazerem amor no quarto ao lado. Depois, na época da extrema pobreza familiar, a menina passa a dividir a cama com os adultos, e eles esbarram nela de madrugada, enquanto transam. Sosa Villada remete a essa experiência filial a sua ambição literária de “escrever o que fica por dizer”. Seguindo a mesma linha, ela se ocupa de explicar por que não gosta de homens que vão ao banheiro se limpar imediatamente após a transa, sobre como preparar o reto para o sexo anal e sobre sexualidade na infância.
O estilo de Sosa Villada sempre se aproximou do de Marguerite Duras. É um esforço assumido pela autora argentina. Assim como Duras, ela escreve com cada vez mais elipses, silêncios e omissões. Em certos momentos, a inspiração beira a caricatura: “Escrever de modo límpido, higiênico, honesto, escrever livros como uma luz no apocalipse, para mim, é repugnante. Prefiro cometer o crime.” Um leitor desavisado de Duras poderia pensar que o trecho foi retirado de Escrever (Relicário), ou mesmo de A dor (Bazar do tempo). A influência brilha mais quando Sosa Villada escreve sobre a sua vida travesti, uma realidade que, até hoje, ninguém trabalhou com tanta força na literatura: “Nossa língua era como um nó, por não sabermos falar muitas coisas. Os adultos nos perguntavam por quê. Não tínhamos linguagem para explicar. As surras, em vários casos, eram consequência do nosso silêncio, de ficarmos mudas diante da cobrança. A exigência adulta de nos expressarmos.”