11 Jun 2026
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“Dize-me o que lês, e eu te direi o que escreves.” A fórmula é simplista, mas vai ao que interessa. O repertório de leitura de um escritor revela muito sobre sua época, obra e personalidade artística. Daí o interesse de estudiosos por vestígios que ajudam a avaliar influências e estabelecer conexões estilísticas e temáticas.
Epígrafes e dedicatórias abreviam o caminho, pois expõem afinidades eletivas e até orientam a interpretação. Maria Valéria Rezende usou este expediente em vários livros. O seu romance Quarenta dias tem mais de trinta citações. Carta à rainha louca desnuda o processo de escrita: apresenta rascunhos das cartas que a protagonista endereça a Dona Maria, a rainha do título. Com um recurso tipográfico, mostra trechos cortados, dando acesso ao mesmo tempo à versão final. Assim, realça o esmero da personagem em buscar a palavra certa para se livrar do convento-prisão; desfaz o mito da escrita puramente intuitiva; e expõe a pesquisa do vocabulário do Setecentos.
Em Recapitulações, sua obra mais recente, Rezende amplia o jogo. Escreve doze contos a partir de textos e filmes, e escancara seu cânone particular: Kafka, Drummond, bastante Machado de Assis, e Saramago, entre muitos outros. Seu desafio é também rendição (no sentido de render homenagem) aos antecessores, mas não submissão, atitude incompatível com a escritora santista enraizada na Paraíba, dona de uma biografia única. Freira dedicada à educação popular e a trabalhos sociais em vários continentes, Rezende tem construído uma das trajetórias mais singulares da literatura contemporânea brasileira. Em Recapitulações, exercita estilos, jogos de linguagem (já no título) e pontos de vista para questões candentes, como a homossexualidade, muitas vezes velada por censura ou autocensura. Deixa transparecer seu prazer em ensaiar uma linguagem próxima aos autores que admira e acolhe temas variados: silenciamento feminino, colecionismo, medo, amadurecimento, impacto da leitura no indivíduo, escrita e cotidiano.
Dentre os autores escolhidos para a homenagem, está o soberbo José Lins do Rego, injustamente esquecido. Além do gosto pessoal, sua presença merece ser lida como gesto político de Rezende, uma espécie de reabilitação do autor. De modo similar, invoca o paraibano Geraldo Maciel, de pouca circulação no Sul do país, e tira do limbo um pilar do gênero conto, o francês Guy de Maupassant.
A coletânea oferece ironia refinada e desfechos inesperados para quem conhece ou não os textos que estão na sombra. Alguém elogiará a tomada de palavra por Capitu; alguém discordará de seu discurso explicativo sobre o triângulo amoroso, que esvazia a ambiguidade da trama. Mas a ideia é essa. Criar instigantes, poéticos e divertidos reencontros com o Gregor Samsa, o João que amava Teresa e outros. Os contos têm vida própria, mas conhecer os textos primários amplia o humor e a ternura com que ela nos seduz. Vai a dica: identificar os seus preferidos e correr atrás de quem inspirou a autora.