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O CENTENÁRIO DA THE NEW YORKER

Documentário da Netflix conta a história da revista norte-americana
Imagem O centenário da <i>The New Yorker</i>

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O leitor da piauí talvez se interesse pelo novo documentário da Netflix sobre a revista The New Yorker, seja pelo gosto de conhecer um pouco dos bastidores de uma publicação centenária, seja porque se trata do título que inspirou a criação da piauí em 2006. Em 1 hora e 37 minutos, está tudo lá: as reuniões de pauta, a escolha dos cartuns da edição semanal, a definição da ilustração da capa, os repórteres em ação, o trabalho de checagem. Consideradas todas as diferenças – de tamanho, longevidade, periodicidade –, é um processo semelhante ao da piauí, incluindo algumas características editoriais, como a distribuição aleatória de cartuns pelos textos, a receita que mistura reportagem, humor e ficção, além da seção Esquina, inspirada na seção The talk of the town, que abre a New Yorker desde sua fundação em fevereiro de 1925.

Mas há uma camada mais profunda de interesse. O documentário mostra como as grandes mudanças na vida de uma cidade, de um país ou do mundo determinam alterações radicais na vida de uma boa revista. Até a Segunda Guerra Mundial, a New Yorker era uma publicação de “ensaios efervescentes e irônicos, de charges ousadas e picantes”, como diz o documentário. Mas tudo mudou com a publicação de Hiroshima, a estupenda reportagem de John Hersey, que ocupou quase todas as páginas da revista (sem a presença de cartuns) com o relato sobre a vida de seis sobreviventes da bomba atômica, e fez o mundo entender os horrores da era nuclear. A revista ganhou uma densidade transformadora. A edição esgotou em questão de horas, e Albert Einstein pediu mil reimpressões para distribuir aos seus colegas cientistas.

Até as manifestações pelos direitos civis nos Estados Unidos, a New Yorker era uma revista racista e preconceituosa. Então, veio outra transformação. Refletindo a energia das ruas, publicou um míssil disparado por James Baldwin – e nunca mais a própria revista pôde falar da questão racial do mesmo jeito. (Prova de que mudar é um exercício profundo: ao lado do artigo de Baldwin, que entre outras coisas refletia sobre o racismo dos brancos mais progressistas, muitos deles leitores da New Yorker, saiu o anúncio de uma marca de uísque em que um serviçal negro oferecia a bebida numa bandeja a dois brancos enfatiotados.)

Mesmo encarando os bons e maus momentos da revista, o documentário não cria uma hierarquia entre os cinco diretores que a publicação já teve – de Harold Ross, o fundador, a David Remnick, o atual –, mas deixa evidente a força de William Shawn, que comandou o semanário por quase quatro décadas, até 1987, e abriu suas páginas para a essência do jornalismo: a vigilância sobre o poder. O saldo do documentário é uma colheita didática para leitores e jornalistas, sobretudo nestes tempos de ataque ao jornalismo e precarização das redações. Mostra que uma revista é mais do que o conjunto de suas páginas, mais do que a soma de suas partes, mais do que o resultado de um trabalho vagamente técnico. Por alguma razão, e aí reside o fascínio de se fazer uma revista, é como produzir um organismo vivo, ou dotado de um dinamismo de vida, que nenhum jornalista sabe exatamente como nasce, mas todo leitor sabe como vive – e que, se não for alimentado com zelo, pode morrer.


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