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O DÍPTICO ENVOLVENTE DE ELIF BATUMAN

Em Ou-ou, autora americana dá continuidade à história iniciada em 2018 com A Idiota
Imagem O díptico envolvente de Elif Batuman

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Os Possessos: aventuras com os livros russos e seus leitores –, firmou a americana (de origem turca) Elif Batuman como uma ensaísta primorosa, com uma voz que reúne um senso de humor debochado e uma curiosidade rara, impulsionada pelo rigor obsessivo com que conduz suas paixões intelectuais. Para Batuman, por exemplo, não bastou estudar russo na graduação em Harvard: ela foi morar na Rússia para aprimorar seu conhecimento do idioma e aprofundar a relação com os autores que amava. Dessa experiência resultou um doutorado e os ensaios de Os Possessos, livro publicado nos Estados Unidos em 2010 e no Brasil em 2012, pela editora LeYa. Todos os ensaios brotam de uma mesma técnica central: a de extrair do tédio e das picuinhas do mundo acadêmico russófilo histórias cômicas e absurdas.

Aqueles que acompanham a carreira de Batuman viram esse repertório se expandir nas reportagens e ensaios que passou a publicar na revista New Yorker. Por trás desses textos pulsava uma consciência autoral que gerava curiosidade – e a esperança era de que Batuman viesse, em algum momento, a escrever um romance. Que esse romance fosse autobiográfico parecia inevitável. Em 2018, ela publicou A Idiota (Companhia das Letras), em que acompanha Selin, seu alter-ego, no primeiro ano de graduação em Harvard. Todas as marcas da voz ensaística de Batuman se manifestam no romance, mas a paixão narrada agora não é apenas intelectual: Selin se apaixona por Ivan, um aluno húngaro taciturno, estudante de matemática. A obsessão a leva não apenas a tentar aprender uma nova língua, como também a viajar para um povoado no interior da Hungria, onde dá aulas de inglês, enquanto aprende o húngaro. A trama, aparentemente modesta, gerou um romance de mais de quatrocentas páginas. A ternura e o humor de Batuman nos convencem de que esse número de páginas é absolutamente necessário para narrar uma história de amor, que não dispensa alguma indulgência e certa dramaticidade, porque assim são as paixões da juventude.

O novo romance de Batuman, Ou-Ou, lançado nos Estados Unidos em 2022, chega às livrarias brasileiras no mês que vem. O livro dá prosseguimento à história de Selin, em seu segundo ano em Harvard e depois da paixão por Ivan, quando ela tenta, nem sempre com sucesso, viver mais livremente. O livro é também um calhamaço, com 416 páginas na edição brasileira (pela Companhia das Letras). Nesse ritmo de escrita, até que Selin se forme em Harvard,  Batuman terá escrito uma longa saga, capaz de rivalizar com a do norueguês Karl Ove Knausgård, autor de uma volumosa obra de autoficção. E a série seliniana ainda tem potencial para prosseguir com o doutorado da protagonista e mais além. Mas o livro vale a pena ser lido (e se o leitor não conhece o anterior, vale ler os dois na sequência).

Com O idiota, o novo romance forma um díptico apaixonante sobre uma personagem feminina muito contemporânea, com suas hesitações e obsessões, uma figura romanesca que ao mesmo tempo homenageia e parodia as grandes heroínas da literatura do século XIX.


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