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O FILME QUE NUNCA FOI

A grande obra que Luiz Sergio Person não conseguiu realizar é rememorada e homenageada em Os ruminantes
Imagem O filme que nunca foi

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Os ruminantes é um documentário que faz um interessante exercício de rememorar e reelaborar o processo criativo de um filme que não pôde existir. Narra a comovente história de um artista que sonhava realizar a grande obra de sua vida, enquanto enfrentava as frustrações de se fazer arte no Brasil. Esse artista é o diretor paulistano Luiz Sergio Person. Depois de se destacar com São Paulo Sociedade Anônima (1965) e o aclamado O caso dos irmãos Naves (1967), Person e seu parceiro de roteiro Jean-Claude Bernardet consolidaram seus nomes no cinema nacional e decidiram adaptar o romance A hora dos ruminantes, de José J. Veiga – uma alegoria sobre a opressão imposta a um vilarejo por forças misteriosas.

É aí que começam as desventuras em série. Os diretores Tarsila Araújo e Marcelo Mello conduzem com delicadeza e habilidade o fio da memória de pessoas que trabalharam e conviveram com Person. É fascinante ouvir Jean-Claude Bernardet discorrer sobre a concepção do projeto, suas intenções estéticas e políticas. “A gente chamou O caso dos irmãos Naves de um filme ‘Castelo Branco’, e A hora dos ruminantes, passamos a chamar de um filme ‘Costa e Silva’ […] A violência física tinha sido apresentada nos Naves e o filme tinha que se diferenciar, então cena de tortura nos Ruminantes era impensável. […] A ideia era abandonar a tortura física e de passar por uma pressão social e psicológica sobre a população”, afirma. Bernardet também revela que uma das inspirações para o projeto era o filme japonês Juramento de obediência, de Tadashi Imai: “Esse filme tinha um mecanismo de repetição estrutural que ia se acumulando, adensando a compreensão e a emoção da situação”, conta. “Quando percebi que a segunda, a terceira história tinham a mesma estrutura da primeira, minha cabeça fez assim… Não só pela compreensão intelectual, mas pela emoção de intuir o mecanismo estético do filme. Trabalharíamos em nosso filme com a reiteração, mas a cada repetição, a pressão dos opressores subiria de patamar – até levar o povo à resistência e à queda dos invasores.”

A narração oral fluida do documentário nos convida a imaginar e reconstruir, em nossa mente, o filme que Person não realizou. O cineasta era uma voz dissonante dentro de sua geração e crítico do Cinema Novo, gestado majoritariamente por seus pares cariocas. Considerava que eles faziam um cinema hermético, incapaz de difundir valores progressistas. Ele queria que A hora dos ruminantes fosse um filme popular. “Era um filme feito para ser popular, mas não apenas entretenimento: queria que fosse algo mais, que tocasse a emoção e o intelecto do espectador”, diz o próprio cineasta em imagens de arquivo. Divergências com produtores, sabotagens por parte de agentes da ditadura e outros mistérios impediram Person de concretizar aquele que seria o projeto de sua vida. “Segundo a minha tia Nina, se meu pai fosse embora sem realizar A hora dos ruminantes, ele não iria embora feliz”, diz Marina Person, filha do cineasta.

Aos poucos, Person vai se tornando um pouco como o protagonista de seu filme mais famoso, São Paulo Sociedade Anônima. Ele abre uma agência de publicidade e passa a ser sufocado pela vida sem sentido da sociedade burguesa. Ele morreu jovem, aos 39 anos, sem realizar seu grande desejo. Mas, de certa forma, o documentário Os ruminantes – que estreou no Festival É Tudo Verdade, nos cinemas do Rio e de São Paulo – é, assim como Cabra marcado para morrer, uma bonita segunda chance de ruminar um filme interrompido pelas circunstâncias políticas.


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