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O LIVRO PÓSTUMO DE JOAN DIDION

Para John revela o esforço da escritora para compreender as dinâmicas da sua família
Imagem O livro póstumo de Joan Didion

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Em novembro de 1999, a escritora americana Joan Didion começou a se consultar com o psiquiatra Roger MacKinnon. Frequentou o consultório dele em Nova York por pouco mais de dois anos para falar, principalmente, das suas preocupações com a depressão e o alcoolismo da filha Quintana. Ao chegar em casa, Didion registrava suas impressões do tratamento psiquiátrico em notas endereçadas ao marido, o também escritor John Gregory Dunne. Tais notas foram encontradas entre as 336 caixas de arquivos que a Biblioteca Pública de Nova York recebeu da família de Didion depois da morte dela, em 2021. As notas chegam ao público brasileiro no livro Para John, com tradução de Marina Vargas para a editora HarperCollins Brasil.

Para os leitores que conhecem as obras de Joan Didion sobre o luto – O ano do pensamento mágico, escrito após a morte do marido, e Noites azuis, no calor do luto pela filha –, o livro póstumo expande a noção do esforço que a escritora empreendeu para compreender as dinâmicas da sua família. Com a clareza fria que lhe era característica, Didion narra a dificuldade de aceitar os conselhos que o psiquiatra oferecia para ela melhorar a relação com a filha. Didion e o marido tinham um profundo ceticismo em relação aos Alcoólicos Anônimos, um dos muitos programas de tratamento que Quintana experimentou. (Ela morreu aos 39 anos devido a complicações de pancreatite.) Ficamos sabendo que até os médicos discordavam sobre a melhor maneira de lidar com o comportamento suicida de Quintana: o psiquiatra de Didion a aconselhou a “jogar com a culpa sem pudor – dizer a ela que você nunca mais teria um dia bom se alguma coisa acontecesse com ela”. Já o psiquiatra de Quintana acreditava que ela não devia ser pressionada para continuar viva.

As notas revelam que, àquela altura da vida, além de uma mãe frustrada por não conseguir estancar a tristeza da filha, Didion também era uma mulher preocupada com o envelhecimento e a sua produção literária. A publicação de Para John gerou um debate sobre a ética dos diários póstumos. A privacidade de Didion estaria sendo violada para o benefício financeiro da editora? O diário pode ser considerado parte da sua obra, visto que ela não previu a sua publicação? Ela não previu mesmo a sua publicação? Fato é que escritores, sobretudo aqueles que também foram jornalistas, sabem que precisam se livrar de seus diários se não quiserem que sejam descobertos depois da morte. Didion deixou os seus diários numa pequena caixa ao lado da mesa do seu escritório em Nova York.


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