Dez 2023 14h38
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Ioga, o novo romance do autor francês Emmanuel Carrère, é balizado por um fracasso. Logo no início, o autor avisa que seu plano de escrever um livrinho “simpático e perspicaz” sobre meditação não saiu exatamente como planejado. O “sagaz” aqui, porém, não é o manual de meditação, mas esse gancho que atiça o instinto voyeurístico do leitor. Como Carrère – um dos escritores franceses de maior sucesso crítico e comercial – fracassou? Ioga é um romance com alto teor autobiográfico, não muito distinto das narrativas de não ficção que consagraram o autor, e a questão do fracasso de seu projeto original é mais instigante do que qualquer coisa que ele tenha a nos ensinar sobre ioga.
Esse truque aparentemente barato deixa de ser truque a partir do momento em que o autor permite que o caos do mundo se sobreponha ao desejo de controle autoral. Se meditação é observar a paisagem da nossa consciência sem demasiados julgamentos (como o próprio Carrère sugere em uma de suas inúmeras definições), o autor vai na direção contrária. Após dez anos de um período feliz e estável, a depressão que conhecera em outros momentos da vida retorna com mais força, levando-o ao que no passado era chamado de terapia de eletrochoque. Não há gatilho específico para a recaída, e nem precisaríamos de um, quando há tantos: estamos em 2015, ano agitado e terrível para grande parte da humanidade.
É o assassinato do economista Bernard Maris – amante de uma amiga próxima de Carrère – no atentado à redação da revista satírica Charlie Hebdo que força a saída prematura do autor do retiro de meditação em que havia se inscrito. A partir daí, a trama do livro se descentraliza, à medida que o narrador busca no mundo exterior uma espécie de antídoto à sua depressão. É um remédio amargo, dado que o mundo está em chamas, mas é desse ato de busca que surgem as partes mais fortes do livro, especialmente o capítulo “Os Garotos”, sobre a relação do autor com quatro meninos refugiados e uma professora americana de história medieval que dá aulas de escrita criativa a eles. “Trinta anos buscando a calma e a profundidade estratégica” o narrador diz. Para aos sessenta e poucos anos se ver “deitado em posição fetal, sozinho, numa cama pequena demais para uma pessoa, na casa vazia de uma mulher sozinha que foi embora sem deixar endereço e está perdida, ela também, em algum lugar do hemisfério Sul. Nada muito extraordinário, no cômputo geral. Isso não é uma propaganda muito boa para a ioga.”