piauí recomenda

O METAL, O TECIDO E A VIDA NAS RUAS

As exposições de Marcelo Cidade e Renata Leoa, ambas na galeria Athena, no Rio de Janeiro, instigam o visitante
Imagem O metal, o tecido e a vida nas ruas

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A galeria Athena tem duas pequenas salas de exposição e fica na Rua Estácio Coimbra, uma ruela sem saída de Botafogo, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Mas, numa exposição em cartaz na galeria, o que se explora é a Zona Sul de São Paulo. Em suas obras, o artista Marcelo Cidade combina dois elementos próprios dessa região da capital paulista: o aglomerado têxtil – ou, como é mais conhecido, cobertor de doação (usados em transporte de carga e para aquecer moradores de rua, por exemplo), e os portões das casas que protegem e distanciam os moradores dessa realidade urbana. Cidade usa tinta spray branca para reproduzir nos cobertores cinco modelos de portões metálicos, daqueles com padrões geométricos e retilíneos. Segundo o artista, não há um planejamento estético prévio nesses modelos, pois os autores desses portões seriam “serralheiros autodidatas”. É essa tensão entre público e privado que parece interessar ao artista. O título da exposição, Pânico na Zona Sul, é uma referência direta à canção homônima do grupo Racionais MC’s que denuncia o cenário de insegurança e desigualdade social que domina a região. Então quando o dia escurece / Só quem é de lá sabe o que acontece, dizem os primeiros versos da música.

No urbanismo carioca, os portões de Marcelo Cidade remetem não à Zona Sul, mas às Zonas Norte e Oeste, onde estão alguns dos bairros do subúrbio do Rio. Um desses bairros é Bangu, onde nasceu e cresceu Renata Leoa, a artista que divide a galeria Athena com Cidade, na sala ao lado. Leoa traz a exposição Terra de Ninguém, com sete pinturas que evocam a sua observação da vida nas ruas. Em um dos quadros, a artista nos coloca dentro de uma casa olhando para uma janela aberta e para um outro quadro na parede – talvez uma referência a uma obra de seu pai, que também era pintor, e cujo realismo paisagístico Leoa reinventa para uso próprio, em quadros que dão mais atenção ao entorno urbano, sem muitas idealizações. Em outra tela, há um sobrado verde e branco contraposto a uma favela ao fundo – para representar os caquinhos de vidro que as pessoas colocam em cima de muros, Leoa utilizou cacos de vidro na montagem, criando uma espécie de efeito tridimensional. As exposições de Cidade e de Leoa estão em cartaz até o dia 3 de agosto. A galeria Athena costuma abrir as duas salas simultaneamente, mas nem sempre uma exposição dialoga com a outra. Nesse caso, a curadora Fernanda Lopes pensou em justamente conectar as duas mostras, mesclando questões arquitetônicas e sociais. Ambas as exposições tratam de mudanças urbanas. O próprio prédio que abriga a galeria é fruto dessas transformações. Marcelo Cidade instiga o visitante ao montar na entrada da galeria uma estrutura metálica na forma do que poderia ter sido a fachada antiga daquela construção. Essa provocação antecipa a experiência interna – a exposição já começa na rua.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.