O MUNDO DOS NEGÓCIOS EM XANGAI NÃO É PARA AMADORES

Série de Kar-Wai tem mistérios, ambiguidade moral, subtramas labirínticas e sensualidade
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O cinema do chinês Wong Kar-wai é uma vertiginosa viagem sensorial, um fluxo de emoções febris e mergulhos psicológicos no íntimo de personagens solitários, cujos dentro e fora se embaralham sob o neon lisérgico das caóticas cidades chinesas. Mas o que acontece quando um artista que costuma mandar às favas a estrutura narrativa linear resolve criar uma série? Em fevereiro, a série Blossoms Shanghai estreou no Mubi (o lançamento na China ocorreu em dezembro de 2023). Se no cinema Kar-Wai se permite elipses, cenas que começam no meio e lacunas deliberadas na história que devem ser preenchidas pelo próprio espectador, na série Kar-wai recorre a uma linguagem mais tradicional, mas sem abrir mão de seu universo ficcional singular.

A série se passa entre os anos 1980 e 1990, quando a China emite sua primeira ação na bolsa de valores e insere sua economia no mercado global – um momento histórico importante para o país. Fortunas são construídas e desfeitas com a mesma rapidez.

Na série, Bao, um rapaz de origem pobre, procura o Senhor Ye, um velho e experiente negociante recém-saído da prisão, e pede que o ajude a ganhar dinheiro no mercado de ações. O mundo dos negócios em Xangai não é para amadores. E, com as dicas certas, Bao se torna um poderoso investidor. Logo no primeiro episódio, Bao sofre um atentado na saída da Bolsa de Valores. A partir daí, Kar-wai desenvolve em cada um dos 30 episódios uma narrativa noir com tudo o que o gênero tem de melhor: mistérios, ambiguidade moral, subtramas labirínticas, sensualidade, investigação, dúvidas, sombras. Quem está por trás do atentado ao jovem self-made man que desafiou a aristocracia investidora de Xangai e se tornou um homem poderoso? A afetuosa e leal Ling Zi, a ambiciosa Miss Wang, ou a enigmática e calculista Li Li? Terá sido o próprio Senhor Ye, ou os inúmeros desafetos do protagonista? De onde veio sua fortuna? Quais pactos e favores foram rompidos para que tenham atentado contra sua vida?

Dentro da estrutura narrativa clássica de séries, Kar-wai se mostra tão habilidoso e virtuoso quanto no território mais familiar de suas narrativas no cinema, fragmentadas e não lineares. Mas ele não abre mão de discutir ideias profundas, frequentemente reiterando a ilusão por trás do mundo neon do capitalismo, suas sombras, seus cantos mais obscuros, e sobretudo sua impermanência – refletida na transitoriedade do dinheiro, do prazer, dos acordos, dos afetos.

Essa é a obra mais clássica do cineasta (apesar de não ser a única num estilo mais convencional), e nem por isso perde em ousadia ou exuberância. Lá estão a estética inebriante do sonho, o neon saturado, a névoa da memória fragmentada, a introspecção psicológica. Tudo aquilo que quem admira o cineasta ama em sua obra.


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