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Jan 2026 15h28
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Entre as décadas de 1940 e 1970, o fotógrafo e cineasta Gordon Parks produziu alguns dos registros mais contundentes, poderosos e sensíveis sobre a vida social do negro nos Estados Unidos. Parte desse acervo está em exposição no Instituto Moreira Salles*, em São Paulo, na Avenida Paulista. São cerca de duzentas obras, entre fotos, vídeos e filmes, que revelam a vida íntima e cotidiana das famílias nos guetos, a segregação racial nos espaços públicos, a pobreza; mas também a dignidade, o afeto, as manifestações artísticas e religiosas (sobretudo a fé islâmica) da comunidade negra, até chegar às tensões políticas e às grandes marchas pelos direitos civis no país.
Parks sempre extraía rigor, beleza e delicadeza das cenas que registrava, fossem flagrantes políticos ou cenas triviais. Tudo em seu olhar é profundamente humano e, ao mesmo tempo, político – esses dois aspectos surgem em sua obra como uma unidade inseparável. O retrato da trabalhadora Ella Watson, funcionária da limpeza segurando uma vassoura e um esfregão, faz um comentário social profundo. Da mesma forma, o retrato de Rosa Parks, silenciosa e reflexiva durante a Marcha para Washington, tem uma sensibilidade que humaniza o mito (a ativista não tinha parentesco com o fotógrafo, apesar do sobrenome em comum). Esse movimento se repete em imagens como a célebre fotografia da menina e sua tia, impecavelmente vestidas, sob a placa “entrada para negros” no Alabama, publicada na revista Life.
A mostra reúne retratos memoráveis de líderes como Malcolm X, de Mahalia Jackson discursando, de muçulmanos negros treinando autodefesa, de jovens se refrescando em hidrantes no Harlem. Mesmo nas grandes mobilizações, Parks destacava o particular: suas fotos reforçavam que toda massa é formada por histórias individuais – e que cada uma delas, juntas, formam a força de um povo.
Além das fotografias, o público pode conhecer também seu vibrante trabalho no cinema. Seja o delicado e autobiográfico The Learning Tree (1969), sobre a jornada de amadurecimento de um adolescente no Kansas, um dos primeiros filmes dirigidos por um cineasta negro para um grande estúdio. Seja o divertido e criativo Shaft (1971), que narra, em tons noir, a história de um detetive negro enfrentando a máfia italiana para encontrar a filha desaparecida de um mafioso. O longa ganhou o Oscar de melhor canção original em 1972 e tornou-se um marco do blaxploitation (filmes dirigidos, protagonizados e destinados ao público negro, inspirados no movimento black power). A exposição fica em cartaz até dia 1 de março de 2026.