piauí recomenda
Jul 2024 13h04
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Desde 3 de maio, a exposição DOS BRASIS instiga quem visita o Sesc Quitandinha, em Petrópolis. Assim como o palácio inaugurado em 1944 para abrigar o maior cassino-hotel da América do Sul se tornou um dos principais espaços culturais de Petrópolis, a exposição é grandiosa, sem qualquer medo de parecer pretensiosa. Essa segurança é justificada, já que a exposição foi pensada desde 2018 e construída por unidades do Sesc espalhadas por 40 cidades de 14 estados. Mais do que isso, DOS BRASIS aborda, de maneira diversa e crítica, a centralidade do pensamento negro no campo das artes visuais brasileiras.
Outros números podem dar a dimensão da importância da exposição. Ao todo são 384 obras divididas em sete núcleos temáticos (Romper, Branco Tema, Negro Vida, Amefricanas, Baobá, Organização Já e Legítima Defesa) que mesclam obras de 241 artistas, em sua maioria negros. Descrita assim, DOS BRASIS pode parecer enciclopédica, mas nenhum dado dá conta da acidez da mostra. DOS BRASIS joga muito bem com os 4 mil m² de área expositiva do Quitandinha. Diante do estilo normando-francês da fachada e do rococó hollywoodiano interno do palácio, as obras brincam de se contrapor ao espaço. O produto desse encontro é enriquecedor – a exposição, que já era densa na sua passagem de três meses pelo Sesc Belenzinho em São Paulo, fica mais afiada e contundente.
A curadoria de Igor Simões, Lorraine Mendes e Marcelo Campos conciliou inúmeras propostas diferentes em um diálogo nada ordenado, muito menos manso. As obras se interpelam, brigam pela atenção do visitante. Atenção conquistada, lançam provocações. Deve-se ter olho atento para as plaquinhas de sinalização da exposição que integram a instalação sutil e precisa “A água afia tudo o que vê pela frente” da artista Charlene Bicalho, que funciona como um beliscão e nos coloca à flor da pele para sentir o que os outros 240 artistas têm a dizer.
A exposição é parte de um movimento de resgate da identidade afro-brasileira em Petrópolis, cidade marcada pela herança colonial. Precedida por exposições como Um oceano para lavar as mãos e Da Kutanda ao Quitandinha, com curadoria de Marcelo Campos e Filipe Graciano, DOS BRASIS é até agora o projeto mais ambicioso nesse resgate. A mostra tem entrada gratuita e fica em Petrópolis até o dia 27 de outubro. Depois, circulará em espaços do Sesc por todo o Brasil pelos próximos dez anos – mas a ocupação do Quitandinha vale uma visita especial.