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Jul 2024 12h14
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“A memória é uma ilha de edição” é uma das máximas mais conhecidas de Waly Salomão. E se a profícua vivência artística de um conterrâneo do poeta baiano pudesse ser pontuada, em pleno palco, por essa tal “ilha de edição”? Essa é a tônica do “quase” monólogo Não me entrego, não!, em que o ator Othon Bastos destila os seus setenta anos de carreira. “Quase monólogo”, porque, no texto escrito e dirigido por Flávio Marinho, o ator de 91 anos, que mantém uma voz impecavelmente poderosa, não está sozinho no palco. A atriz Juliana Medella é quem encarna a memória do ator, como um Google ou uma Alexa de carne e osso, fazendo observações, pontuações e correções às suas falas, criando uma dinâmica divertida e, ao mesmo tempo, densa.
Baiano de Tucano, Othon Bastos se mudou para o Rio de Janeiro aos 7 anos e, aos 17, começou a atuar na companhia de Paschoal Carlos Magno. Hoje, já se passaram mais de 30 peças, 80 filmes e mais de 100 participações em novelas, minisséries e especiais. Bastos também é muito conhecido pelas tramas de época que fez na TV Globo nas últimas duas décadas.
Apesar de o ator não surgir sem roupa em qualquer momento da peça, ele acaba ficando nu. A obra gira em torno de alguns eixos, como trabalho, amor e vida artística, com Bastos relembrando e refletindo sobre o seu início de carreira, incluindo a vez que uma professora sugeriu que desistisse por ter julgado que ele não tinha talento algum para a empreitada. Ele também relembra alguns de seus personagens consagrados, como o cangaceiro Corisco de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; e Augusto, da peça Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri. No campo do amor, há tocantes reflexões sobre seu casamento com a atriz Martha Overbeck, com quem divide a vida há 57 anos. Em tempos em que o uso da inteligência artificial (IA) nas artes está sendo amplamente discutido e questionado, celebrar uma memória viva do cinema e da teledramaturgia também é uma forma de se celebrar a boa e velha IO (inteligência orgânica). Essa temporada da peça – temporada heroica, já que ela persiste incrivelmente sem patrocínio – foi prorrogada até o dia 29 de setembro, no Teatro Vannucci, no Rio de Janeiro.