piauí recomenda
Dez 2024 20h25
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Era junho e eu escrevia um perfil para a piauí quando recorri a alguns textos de Freud, a fim de me informar como traumas familiares de infância poderiam ter impactado a vida de meu perfilado. Tropecei na feliz leitura de Minha análise com Freud: reminiscências, de Abram Kardiner, lançado no início do ano pela editora Quina. Publicado originalmente em 1977, nos Estados Unidos, o livro chega pela primeira vez ao mercado editorial brasileiro numa tradução exímia e fluida de Nina Schipper.
Kardiner, psiquiatra e cofundador da New York Psychoanalytic & Society Institute, tece um precioso relato sobre o período em que foi paciente de Sigmund Freud por seis meses em 1921, quando a psicanálise dava seus primeiros passos. O jovem psiquiatra queria conhecer de perto a prática analítica do homem que transformou o conhecimento da mente humana no século XX. Filho de pobres imigrantes judeus da Ucrânia, Kardiner viaja para Viena e senta-se no divã de Freud. A obra apresenta com detalhes o encontro, e discorre sobre a análise freudiana, a evolução da psicanálise e como Kardiner colocou em prática o que aprendeu ao retornar para Nova York. Mas o grande encantamento da obra de Kardiner é o momento em que compartilha com os leitores o mesmo relato de seu passado que ele contou a Freud. Quando se senta no divã, ele nos oferece a experiência de nos colocarmos no lugar de Freud enquanto ouvimos sua história.
A realidade dura de uma família pobre, a culpa, as castrações e humilhações das suas primeiras memórias da infância são narradas com uma honestidade perturbadora: “No geral, minha primeira infância foi um pesadelo incessante, no qual incluem fome, negligência, uma sensação de não ter nenhum valor, e um desconcertante sentimento depressivo.” É comovente ouvi-lo sobre o impacto da morte da mãe: “Minha autoestima já havia sido aniquilada pela negligência, pela morte de minha mãe.” Sobre a figura temida do pai: “Atravessávamos uma depressão econômica, e acho que meu pai era um ser humano muito atormentado, com quatro bocas para alimentar e sem conseguir ganhar o seu sustento. Isso contribuía para sua irritabilidade.” Sobre a culpa que sentia em relação à irmã mais velha, sempre rejeitada: “Eu me tornei o favorito e, enquanto minha madrasta condescendia comigo, seu desdém para com minha irmã e os maus-tratos que lhe infligia me deixaram com sentimento de culpa que ainda carrego comigo.”
Mas o tópico mais interessante é a figura da madrasta: “Permaneci apaixonadamente ligado a ela […] Ela me tirou do caos de um ambiente devastado e desestruturado e me conduziu ao paraíso de um mundo ordenado. Ela me estimulou precocemente a uma idealização do feminino, que logo transferi para minhas professoras de escola.” É fascinante acompanhar Freud desatando os nós dos fios do inconsciente de Kardiner, e revelando intenções escondidas como numa trama detetivesca, em que cada elemento do passado é uma pista para elucidar a neurose de Kardiner. No centro dela estavam seu pai e sua madrasta. Depois de ouvir o sonho do paciente, Freud dispara: “Há muita luta dentro de você. […] Você se relaciona sexualmente com sua madrasta […]Este era o conflito em questão […] como você ousaria competir com o homem cujo auxílio e apoio você queria obter, a quem temia que fosse humilhar caso você revelasse que o rivalizava para substituí-lo.” A análise vira um jogo fascinante de projeções onde o próprio Freud se torna objeto. “Eu tive medo de meu pai na infância, mas aquele que eu temia agora era o próprio Freud”, escreve Kardiner. A obra proporciona um mergulho maravilhoso e terrível nas sombras do inconsciente do autor.