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O RETORNO DO PULP

O disco More é um caso raro e um exemplo de como envelhecer bem, na vida e na música
Imagem O retorno do Pulp

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Depois de um longo hiato, temos assistido a um revival do britpop, gênero – ou, mais precisamente, uma geração – do rock britânico que fez sucesso nos anos 1990. Os irmãos Gallagher ressuscitaram o Oasis e estão rodando o mundo numa turnê que chegará ao Brasil em novembro. O Supergrass tem feito shows comemorativos dos trinta anos de seu primeiro álbum e tocará em São Paulo no final de agosto. O Manic Street Preachers, banda de galeses socialistas, lançou disco novo e tem se apresentado na Europa. Não faz muito tempo que o Blur lançou The ballad of Darren (2023), seu primeiro álbum em oito anos.

O trabalho mais consistente até aqui, no entanto, veio do Pulp – curiosamente, um grupo que ocupou o lugar de azarão na história do britpop. Era mais estranho e mais velho que todos os outros (foi criado por Jarvis Cocker no final dos anos 1970). Natural de Sheffield, não se encaixava bem na dicotomia que se criou entre os machões da classe trabalhadora de Manchester (Oasis) e os universitários refinados de Londres (Blur). Surfou por acaso a onda dos anos 1990 e teve seu auge, também por acaso, numa apresentação imprevista no festival de Glastonbury, em 1995 – isso porque a principal atração naquele ano, o Stone Roses, cancelou sua participação de última hora e o Pulp foi chamado para substituí-los.

A banda nunca lotou estádios, mas fez sucesso. Separou-se em 2002, um ano depois de seu derradeiro álbum, e desde então se reuniu poucas vezes, apenas para shows. Agora, surgiu com um novo disco chamado More, cujo grande mérito talvez seja não ceder à nostalgia, um erro comum de bandas que se reúnem depois de muito tempo e viram pastiches de si mesmas. O essencial do Pulp está lá – o jeito canastrão de Cocker, a voz sussurrada, as tiradas sexuais (“sem amor/ você está apenas se masturbando dentro de outra pessoa”), a estética disco –, mas nada soa postiço. Há momentos de um pop primoroso, como a faixa Grown ups, provavelmente a melhor do disco, e bonitos, como Farmers Market. Cocker, que costumava escrever da perspectiva de mulheres (jovens iniciando a vida sexual, mães solteiras, amantes frustradas, garotas objetificadas, filhinhas de papai), agora fala um pouco mais sobre si, o baque do divórcio, o enfado da vida adulta, a aproximação da morte.

Desde que alcançou a fama, o Pulp só lançou bons discos, sendo Different Class (1995) o maior deles. More, lançado com trinta anos de distância, não fica muito atrás. É um caso raro e um exemplo de como envelhecer bem, na vida e na música. A banda agora soa mais madura, mais grave, mas isso não implica escolhas esteticamente conservadoras. Cocker, aos 61 anos, continua sendo um dos frontmans mais originais da música contemporânea.


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