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Ago 2024 10h56
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O velho Isaías tem nome de profeta, mas não profetiza nada. Mesmo assim, durante os verões, costuma atrair dezenas de seguidores para a bonita ilha onde mora, em algum ponto do litoral brasileiro. Enigmático e um tanto ranzinza, o idoso passa boa parte do tempo sozinho, nas montanhas. Ali, entre cachimbadas e devaneios, gosta de capinar e plantar. Às vezes, esbraveja contra Deus, que lhe parece cada dia mais indiferente às mazelas humanas. Pode-se dizer que Ensaio da paixão – um dos romances inaugurais de Cristovão Tezza, originalmente publicado em 1986 e agora reeditado pela Record – gira em torno de Isaías. O velho, porém, não é o protagonista da trama. Ele mal dá as caras nas 326 páginas do livro, ainda que os demais personagens o evoquem reiteradamente. Na verdade, ninguém protagoniza a história.
Com o longa-metragem Nashville, de 1975, o cineasta norte-americano Robert Altman lançou um tipo de narrativa que logo ganhou o nome de “filme-coral”. Nas produções do gênero, uma galeria sortida de personagens desfila em cena sem que um se revele maior do que o outro. Pois Ensaio da paixão é um romance-coral. Todos os anos, um bando de rapazes e moças se encontra na ilha com o intuito de montar uma versão teatral da Via Sacra, o doloroso percurso que Jesus amargou depois de condenado à morte pelas autoridades romanas. Isaías dirige o elenco, que apresenta o espetáculo para os raros habitantes do lugarejo. Trata-se menos de uma peça e mais de um happening, em que o improviso e a criatividade dos atores devem sobrepujar qualquer script.
Embora não deixe claro onde fica a ilha, o autor indica que o livro se desenrola no início da década de 1970. O pano de fundo é o sanguinário governo do general Emílio Garrastazu Médici. Os jovens que resolvem abraçar o projeto de Isaías exibem perfis muito diversos. Há hippies, desempregados, traficantes, artistas underground, um galã da tevê, um escritor famoso, uma dondoca irritadiça, uma filha rebelde de militar, um iogue que levita, e uma porção de universitários maconheiros. Enquanto aguarda os ensaios da montagem, a improvável trupe desnuda pensamentos e emoções que traçam um rico panorama daquele período histórico – uma fase em que as utopias libertárias ainda vigoravam e disputavam espaço com o reacionarismo da sociedade ou as frustrações, os preconceitos e as mágoas pessoais.
Sem que Isaías e o elenco percebam, integrantes do Exército os observam e planejam ocupar a ilha para reprimir o que enxergam como uma reunião de subversivos. O ápice do romance se dá justamente quando a “operação anticomunista” eclode. A semelhança entre o discurso dos milicos paranoicos e o da atual extrema direita se mostra tão engraçada quanto assustadora.
Catarinense radicado no Paraná, Tezza concluiu o livro em 1981. Pouco depois, o antigo Prêmio Cruz e Sousa de Literatura concedeu uma menção honrosa à obra. A primeira edição dos originais, no entanto, saiu só cinco anos depois. O realismo sarcástico do enredo se entrelaça com momentos inusitadamente sobrenaturais, caracterizados pela presença de um vampiro arrogante, um anjo da guarda medroso e um demônio bebum. O arranjo soa esquisito, mas não tira a graça e a pertinência do romance.
No posfácio, o autor conta que Ensaio da paixão carrega um viés autobiográfico. O velho Isaías se baseia em Wilson Galvão do Rio Apa (ou simplesmente W. Rio Apa), dramaturgo e guru paulistano que Tezza conheceu bem. Dos 16 aos 24 anos, o futuro romancista frequentou o Centro Capela de Artes Populares, uma comunidade alternativa que o teatrólogo de ambições rousseaunianas instalou em Antonina, pequena cidade do litoral paranaense.
Também no posfácio, o escritor expõe os dilemas de ressuscitar um livro concebido há mais de quatro décadas. Ele afirma que cedeu às regras contemporâneas do politicamente correto e abrandou a violência de certas falas. Agiu dessa maneira “covarde” não porque desejava purificar o romance “de seus crimes” e, sim, para evitar que os personagens sejam “julgados, cancelados e trucidados pela letra de leis, normas, eufemismos e critérios então inexistentes”.