Dez 2023 14h44
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A africana Teodora Dias da Cunha, como tantos outros escravizados, não sabia ler nem escrever. Mesmo assim, ousou lançar mão da escrita na tentativa de realizar três sonhos: restabelecer contato com o marido e o filho, obter a alforria e regressar à terra de origem. Adquirida inicialmente por um fazendeiro do interior paulista, morou perto de Limeira, onde constituiu família. Tudo indica que nasceu no reino do Congo, na primeira ou segunda década do século XIX. Em 1862, se tornou propriedade de um cônego, que a levou para a capital de São Paulo. Era principalmente cozinheira, o que lhe permitia sair às ruas com a missão de buscar água nos chafarizes e fazer compras. Enquanto zanzava pela cidade, encontrou um pedreiro igualmente cativo, mas alfabetizado. Ela lhe pediu que redigisse cinco cartas. Depois, conheceu outro escrevente, para quem ditou mais duas correspondências.
A maioria das mensagens se destinava ao marido e ao filho de Teodora, que permaneceram no interior. As restantes deveriam alcançar o irmão de um senhor rural e o próprio cônego – indício de que a escravizada tinha pouco convívio com o dono. Num português confuso e totalmente avesso à norma culta, as cartas não apenas revelavam aqueles três desejos da africana. Também evidenciavam a dicção popularíssima dela, salpicada de termos como “nois” (em vez de “nós”), “filicidade” (em vez de “felicidade”) e “vortar” (em vez de “voltar”). Das sete correspondências, só uma – a endereçada ao cônego – chegou até o destino. As demais acabaram confiscadas pela polícia. Nas mensagens, os escribas frequentemente se atrapalhavam com o nome que a cozinheira recebeu de seus algozes. Ora grafavam Theodoria, ora usavam Tiadora ou Tiodoria.
Quando leu o livro Sonhos Africanos, Vivências Ladinas, da historiadora Maria Cristina Cortez Wissenbach, o quadrinista negro Marcelo D’Salete soube das cartas e se emocionou. Resolveu, então, criar uma ficção em que descreve os apuros enfrentados por um jovem para entregar uma das correspondências. Surgiu, assim, Mukanda Tiodora. Publicada no final do ano passado, a obra de 224 páginas consolida D’Salete como um dos principais autores brasileiros de graphic novels. O artista já havia abordado a resistência à escravidão sob o viés da negritude em dois trabalhos anteriores, Cumbe (2014) e Angola Janga (2017), que retratam o século XVI e lhe renderam prêmios tão significativos quanto o Jabuti, o HQMix e o norte-americano Eisner.
No novo livro, D’Salete refina a técnica que o caracteriza desde o princípio da carreira. Ele continua se valendo do preto e branco, do alto contraste e de uma concisão gráfica que lembra a das xilogravuras. É refratário à verborragia e, por isso, investe num texto muito sintético e eficaz. Não bastasse iluminar Teodora, personagem que a história oficial praticamente apagou e de quem a aristocracia esperava apenas o silêncio, o quadrinista abre espaço para Ferreira de Menezes e Luiz Gama. A dupla de abolicionistas negros participa do enredo com alguns comentários sobre a proibição fajuta do tráfico negreiro em 1831 e a Guerra do Paraguai, que levou milhares de escravizados às frentes de batalha. Um precioso material acompanha a graphic novel: fotos e mapa de São Paulo no século XIX, uma cronologia das revoltas paulistas contra o sistema escravocrata, um ensaio de Wissenbach e a íntegra das sete cartas que Teodora bravamente legou à memória nacional. Não há registros de que a africana tenha conseguido realizar seus sonhos.