Mar 2026 13h40
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Como anuncia o texto curatorial afixado em uma das paredes da galeria Flexa, no Leblon, “esta mostra escolhe o verbo”. Sabe-se que, na Avenida e nas avenidas, por quase um mês inteiro, pessoas saem às ruas imbuídas de uma alegria eletrizante – expressa de muitas formas, mas sobretudo com samba. Os corpos, por esse pequeno período, são parte do espetáculo – eles articulam-se para brincar ao ritmo dos bumbos pesados em espaços que não foram necessariamente pensados para este fim.
A curadoria de Daniela Avellar privilegia especialmente um exercício de intelectualidade que se ocupa dos carnavais e da maneira como diferentes populações e tempos os utilizam, com obras que operam em diferentes linguagens e épocas, de Di Cavalcanti a Hélio Oiticica, da beleza aplumada das porta-bandeiras à monstruosidade das máscaras. A mostra se sustenta, portanto, dessa pluralidade, desses radicais – que, por uma coincidência que não parece gratuita, se encarregam de encampar a celebração de uma festa suburbana no metro quadrado mais caro do país, encarnando o espírito de desordem que toma conta dos povos da rua. Mal ou bem, esses radicais inseridos nesse contexto tornam o passeio ainda mais interessante e crítico, dependendo dos olhos de quem vê.
A variedade de tempos e espaços é levada às últimas consequências na obra Rua dos Inválidos, de Edu de Barros. Seu trabalho costuma se apropriar de tapeçarias antigas, que representam cenas de séculos atrás; Barros faz intervenções chamativas nas incursões pacatas daqueles personagens – homens urinando em chafarizes, vendedores ambulantes, mulheres escalando árvores e por aí vai.
O grande êxito da exposição Carnavalizar: método e invenção é reforçar um caráter permanentemente contemporâneo do carnaval – sempre há espaço para mais perspectivas do que é a festa. Ressalta também que ele nunca está dissociado da política (racial, de gênero, de ruas). Avellar projeta, como enuncia o título, a matemática do jogo, seus métodos. É difícil saber quais são eles, afinal há muitos jeitos de carnavalizar.